24 de maio de 2016

No mês de Maria, um testemunho por dia: nº 24


Comecei a estudar numa escola de freiras quando fiz 11 anos: o Instituto São José. Esta escola é de responsabilidade da Congregação das Irmãs Auxiliares de Nossa Senhora da Piedade. Então desde cedo fui sendo catequizada e formada sobre essa devoção mariana especial que, de fato, sempre me tocou o coração. A realidade dos sofrimentos de Maria sempre me sensibilizaram, realmente me compadecia daquela pobre mulher que sentia todas as dores do Filho, embora, na minha imaturidade, não conseguia penetrar a profundidade deste mistério. 
Até que num dia assisti a um noticiário que informava sobre uma rebelião num presídio. Até aí, infelizmente, nada de novo, pois é um episódio que acontece com alguma regularidade em nosso país. Mas algo tocou profundamente meu coração, minhas entranhas, minha alma. Em determinado momento da reportagem o cinegrafista mostrou uma pobre mãe que, do lado de fora do muro do presídio, se desesperava ao assistir seu filho no telhado do prédio sendo alvejado e caindo. Ela gritava pelo nome dele e, em sua impotência, se descabelava e implorava em nome de Deus por socorro. 
Já se passaram mais de 20 anos que vi essa reportagem e ainda me vem lágrimas aos olhos quando me lembro disso. Imediatamente fiz a relação com Maria aos pés da Cruz, assistindo o martírio do amado Filho, ressalvando as óbvias diferenças: o sentimento de dor era similar. O peito materno se rasga de dor assistindo os sofrimentos dos filhos, não importa quem é a Mãe, não importa quem é o filho. Nunca mais vi Nossa Senhora da Piedade com os mesmos olhos. Sempre acompanho as Vias Sacras encenadas pela minha comunidade e seguro bem a onda. Só não dá pra segurar na hora de Maria aos pés da Cruz. Não dá pra segurar...
Assim, aquela imagem de Nossa Senhora recebendo o corpo do Filho morto tem um forte impacto sobre mim desde muito nova, e mais ainda depois que me tornei mãe! Infelizmente não pude colher os corpinhos dos dois bebês que perdi ainda em gestação, mas me identifico com as dores de Maria assim mesmo. Partilhei a dor de amigas amadas que viveram na carne a experiência da Pietá e chorei com toda a minha essência de mãe junto com elas, unida a Maria. Só quem experimentou a espada de dor transpassando a alma como foi predito pelo velho Simeão (Lc 2, 35) entende esse sentimento. 
A primeira viagem que fiz sozinha na minha vida foi uma viagem de trabalho. Na ocasião estava justamente trabalhando na escola em que estudei, junto com as irmãs de Nossa Senhora da Piedade. E o que era para ser uma viagem de formação profissional se tornou para mim numa verdadeira peregrinação espiritual. Viajamos para Lavras-MG, para um Congresso de Educação, mas para mim, foi um encontro com a Mãe da Piedade. Minas Gerais tem justamente como Padroeira Nossa Senhora da Piedade (eu amo Minas!!!!). Fomos muitíssimo bem acolhidas num convento que tinha uma capela maravilhosa, toda azul como o manto de Maria e, próximo ao sacrário, lá estava ela, a Mãe Piedosa. 
Depois dessa experiência iniciei uma jornada vocacional para discernimento: sentia-me profundamente envolvida pela vontade de servir a Deus e os irmãos neste carisma da piedade e da educação que essas irmãs traçavam. Trocamos cartas, marcamos encontros, mas o Espírito Santo foi me conduzindo para minha verdadeira missão: o matrimônio e a maternidade. De qualquer forma, fui selada com a devoção a Nossa Senhora da Piedade de maneira perpétua. 
Lembro-me de que em missão pelo ministério de dança Bailando no Espírito, numa ocasião, a graça divina nos inspirou uma coreografia profundamente complexa sobre a Santíssima Trindade, onde três bailarinas faziam as vezes das três pessoas da Santíssima Trindade. Todas as três vestiam a mesma roupa branca e ficavam unidas pelos braços por lenços brancos, numa tentativa de simbolizar a união das três pessoas na verdade da unicidade divina. Porém cada uma tinha um adereço de cor específica: a quem representava o Pai (no caso era eu) vestia vermelho; a que representava o Filho (a Karla Martins) vestia azul e a que representava o Espírito Santo (Fabiana Ferreira Lima) vestia dourado, e Maria era representada pela Daniele Amaro (na primeira versão dessa apresentação, pois a apresentamos diversas vezes depois, com outras participantes como a Ana Paula Lamounier, a Thaise Ribeiro, Luciana Farias do Nascimento, Tauana Rolim e nem me lembro mais quantas irmãs!...). 


Com absoluta certeza foi a coreografia mais sofisticadas que preparamos e a mais solicitada de toda a história do ministério! Apresentamos essa dança em quase todas as cidades do DF, inúmeros eventos da RCC e da Arquidiocese de Brasília, múltiplas vezes em Sobradinho-DF (a das fotos acima foi no Anuncia-me, no Ginásio Agostinho Lima), mas também apresentamos na paróquia Bom Jesus, na Capela São Vicente, em quase todas as Igrejas de Sobradinho, Teatro de Sobradinho e sei lá quantos outros lugares, por alguns anos. 
Lembro-me que muitas e muitas vezes as pessoas nos procuravam com lágrimas nos olhos e a menção principal era a da cena final, na qual Maria adentrava e finalizávamos montando a cena da Pietá, com Maria segurando a "Pessoa do Filho" nos braços, a "Pessoa do Pai" abençoando por um lado e a "Pessoa do Espírito Santo" acima de todos com os braços abertos, abarcando toda a cena. Vários padres e diáconos, quando dançávamos durante as Missas, na homilia faziam verdadeiras análises teológicas ilustrando com os movimentos da coreografia as verdades da Fé católica, especialmente sobre Maria e sua imersão no seio da Trindade Santa. Realmente obra do Espírito Santo!
Quando tive a oportunidade de, no Vaticano, na Basílica de São Pedro, poder estar alguns minutos em contemplação a obra original da Pietá do grande Michelangelo, não contive mesmo as lágrimas. Em todas as capelas e partes da Basílica a bagunça era grande dos turistas, muitos católicos, muitos não, com conversas, risadas, fotos e flashes... exceto diante da Pietá. Ali havia um silêncio reverencial, uma empatia da parte de todos pelo que aquela imagem representava, a dor da Mãe era um pouco mais respeitada. 
Peço então a Mãe da Piedade que nos ensine a estar de pé diante das nossas Cruzes e das cruzes das pessoas que amamos! Que nos dê a dignidade e a fé nos momentos de nossa vida de maior sofrimento, pacificados pela esperança e confiança em seu Filho Jesus, que venceu a morte e nos promete a vitória! Amém!