21 de maio de 2011

Santa Bárbara, Virgem e Mártir

Análise – desfazendo preconceitos


Desde o mais célebre mártir até o mais obscuro, todos deram provas, perante a morte, de uma firmeza de ânimo e de uma serenidade que, independentemente da adesão à sua fé, suscitaram muitas vezes a maior admiração. (…) Fé absoluta em Jesus, esperança total na Promessa, caridade levada até o extremo da oblação de si mesmo: as três virtudes teologais efetivam-se no martírio com uma plenitude inigualável (ROPS, 1988, p. 186 e 189).
                Paira sobre a imagem de Santa Bárbara muito desconhecimento e algum sincretismo, o que possibilita certa desconfiança para os católicos que, vendo sua identificação com a figura de Iansã, entidade do candomblé muito popular em diversas localidades no Brasil, sentem-se confusos sobre o que de fato se refere à identidade católica da santa. As supertições da religiosidade popular são tantas que, sem uma pesquisa aprofundada de sua história e martírio, perde-se o sentido da devoção pelo modelo da fé vivida e testemunhada na figura em questão.
            Tal pesquisa encontra muitas dificuldades de ser empreendida, visto tratar-se de uma pessoa que viveu em tempos antiqüíssimos e cuja história ao longo dos anos se envolveu em relatos demasiado lendários. O fato de não figurar mais no Calendário Litúrgico da Igreja também dificulta seu conhecimento sob uma ótica cristã verdadeira, posto que sua memória litúrgica poderia ser um momento de catequese singular para os católicos, assim como ocorre nas missas dedicadas a outros santos.
            Contudo, a perseverança é mesmo caminho do êxito (Charles Chaplin). Se não se deixar se abater pelos obstáculos relacionados acima, o cristão pode encontrar no estudo sobre a vida de Santa Bárbara de Nicomédia, Virgem e Mártir da Igreja, um precioso testemunho de fé dos primeiros séculos do cristianismo, uma profunda mensagem espiritual para a vivência da fé em Cristo nos dias de hoje.

Relacionando a mensagem espiritual às Sagradas Escrituras

Conhecendo melhor e meditando sobre a história de Santa Bárbara de Nicomédia, alguns aspectos se destacaram. O primeiro deles foi o fato de que seu próprio pai foi o seu maior algoz na perseguição que sofreu para que renunciasse sua fé em Cristo. De fato, em Mt 10, 34-36, Jesus já afirmava: "Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, e os inimigos do homem serão as pessoas da própria casa". A história de Santa Barbara ilustra perfeitamente essas palavras. No dilema entre a obediência ao seu pai e a fidelidade à fé, Bárbara optou por seguir à risca o Evangelho, confiando nas promessas Nele contido:

Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a mim, não é digno de mim. Quem ama seu filho mais que a mim, não é digno de mim. Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim. Aquele que tentar salvar a sua vida, perdê-la-á. Aquele que a perder, por minha causa, reencontrá-la-á.” (Mt 10, 37-39)

Este ponto chama atenção para o lugar que Cristo deve ocupar na vida do verdadeiro seguidor de Cristo no aspecto dos relacionamentos humanos. Trata, em termos práticos, do cumprimento do 1º mandamento da Lei de Deus que exige “Amar a Deus sobre todas as coisas”, o que inclui a primazia dos sentimentos e ações em direção a Deus antes de todas as coisas e até mesmo, antes de qualquer outra pessoa. E, em questão de obediência, que se faça sempre como fez Santa Bárbara, seguindo a orientação de Pedro e os apóstolos em Atos 5, 29: “Importa obedecer antes a Deus do que aos homens.”
O segundo aspecto digno de destaque é a maneira com que Santa Bárbara, ainda muito jovem, foi capaz de suportar as agressões físicas violentas e, ainda assim, permanecer firme na decisão de ser autêntica seguidora de Cristo. Não obstante a falta de documentação histórica confiável da biografia de Santa Bárbara, é de amplo conhecimento que, indiscutivelmente, os primeiros cristãos foram perseguidos pelas autoridades romanas a fim de que negassem sua fé na doutrina cristã e prestassem culto aos deuses romanos oficiais. Mesmo que as informações que se tem de Bárbara de Nicomédia fossem permeada de lendas, de fato os primeiros séculos de cristianismo foram banhados pelo sangue dos mártires e virgens dispostos a, como São Paulo afirmou em Col 1, 24, completar em sua própria carne, em favor da Igreja, o que faltasse às tribulações de Cristo.
Esta temática pode trazer um valioso ensinamento sobre passar pelos sofrimentos desta vida com uma nova perspectiva, animados com o exemplo dos mártires, dentre eles Santa Bárbara. A certeza de que nada é capaz de nos separar do amor de Deus, nem a tribulação, a angústia, a perseguição, a nudez, o perigo e nem mesmo a espada (Rom 8, 35), possa sempre animar os cristãos a permanecerem fiéis, mesmo nas adversidades, que eram vistas para muitos mártires não como barreiras ou castigos, mas como missão, como meio de alcançar a glória de Deus.
Um terceiro ponto que chamou a atenção foi a maneira como Santa Bárbara era sempre levada a implorar a Jesus, com confiança, nos momentos de seus suplícios. E mais, como era sempre consolada pela presença divina. Acontecia com ela conforme reza o versículo 7 do Salmo 33: Este infeliz gritou a Deus e foi ouvido, e de todas as angústias Ele o livrou”.

Por este aspecto o fiel é impulsionado a confiar sempre que o Pai Celeste sabe dar boas coisas aos que lho pedirem, está sempre disposto a dar ao que pede, fazer achar a quem busca e abrir a quem bate. (Mt 7, 7.11) Não se pode abrir mão da súplica a Jesus nos momentos de lutas e dores (“Não obtendes, porque não pedis”.Tia 4, 2b), mas, sem deixar de se colocar sob a Vontade de Deus (“Pai, se é de teu agrado, afasta de mim este cálice! Não se faça, todavia, a minha vontade, mas sim a tua”. Luc 22, 42).
A última perspectiva que se referencia e com a qual se encerra esta análise diz respeito a força de resistência que ensina Santa Bárbara na luta do combate espiritual. A carta aos Hebreus, no início de seu capítulo 12, assim exorta:
Nos dias de hoje, quando o relativismo cultural flexibiliza tudo, o cristão muitas vezes não consegue se manter autêntico, estável em sua caminhada de fé. É facilmente levado ao sabor das ondas, agitados por qualquer sopro de doutrina (Efe 4, 14), a curiosidade tendendo a seguir qualquer prurido de novidade (II Tim 4, 3). Qualquer desculpa é suficientemente aceitável para justificar atitudes contrárias ao Evangelho. De fato, não se tem resistido nem até o desconforto passageiro na luta contra o pecado, que dirá até o sangue.
A história de Santa Bárbara, assim como de todos os mártires de nossa Igreja, recorda que o caminho para a vida verdadeira, a eterna, é o caminho apertado, é o que passa pela porta estreita (Mt 7, 14) e que para alcançarmos a coroa da vitória é preciso lutar, pois “nenhum atleta será coroado, se não tiver lutado segundo as regras.” (II Tim 2, 5)
Como afirma S. Policarpo (ele mesmo martirizado no mesmo período que Santa Bárbara):
Nós adoramos a Cristo qual Filho de Deus. Quanto aos mártires, os amamos quais discípulos e imitadores do Senhor e, o que é justo, por causa de sua incomparável devoção por seu Rei e Mestre. Possamos também nós ser companheiros e codiscípulos seus. (S. Policarpo, apud Catecismo da Igreja Católica, 1999, p. 270-271)
Que o exemplo de Santa Bárbara de Nicomédia, Virgem e Mártir cristã, possa nos motivar em nossas caminhadas de combate e serviço pelo Reino de Deus, contando sempre com sua intercessão em nossa opção pelo Evangelho.