3 de maio de 2011

Príncipes e princesas

São Josemaría Escrivá tem uma expresão que eu gosto muito: "desdramatizemos as situações". E o que pode ser um drama maior que a nossa vida amorosa, nossa afetividade? Encontrei no Blog do Grupo de Oração Abba (http://grupodeoracaoabba.blogspot.com/) um texto do Pe. Fábio de Melo que me fez rir e chorar justamente pela falta de "drama", pelo realismo. Lembrei-me das minhas queridas amigas solteiras, que se recomendaram às minhas orações por sua vida amorosa, inclusive, lembrei-me de uma em especial que, diante de uma circunstância meio atropelada com um potencial príncipe, reclamou: "Manu, você não está rezando direito!" Lembrei-me das partilhas que de vez em quando nós temos, das altas expectativas de algumas (que pedem a Deus por um "José") e, no extremo oposto, daquelas que estão aceitando qualquer coisa (até os "Judas")... Lembrei-me de alguns amigos e amigas, irmãos tão jovens, com tanto potencial para uma belíssima história de amor no nível do Cântico dos Cânticos e que, no entanto, se vulgarizam, colocando-se no "mercado em liquidação". E, do auge dos meus 10 anos de casada, me identifiquei totalmente com o "amor constistente" de que fala o padre. O nosso pároco, numa direção espiritual para mim e meu esposo, esclareceu que só a partir de pelo menos 7 anos de casado é que conhecemos a verdadeira essência do nosso parceiro, quando passa o encantamento da paixão que faz com que tanto um veja o outro com olhos cegos pelos sentimentos quanto o outro não seja exatamente ele mesmo, na tentativa de agradar. Neste ponto da relação, urge fazer uma decisão racional por amar, de se re-apaixonar pelo querido "traste" que a gente agora conhece de verdade e esquecer daquele pseudo-príncipe que foi apenas uma fase da vida dele. É, meus caros, o príncipe que vem salvar a princesa da torre na verdade é o ogro Shrek e a bela e ruiva princesa Fiona não estará sempre "montada" e gentil, ela também é uma ogra. É como diz minha filha Clara de 7 anos: o Papai do Céu quer que a gente ame mesmo com as chatices e feiúras, ame com todas as qualidades e defeitos. No fim de tudo, a vivência de nossa afetividade está intimamente relacionada com a nossa vocação: qual é o chamado de Deus na minha vida? Qual é o sonho de Deus para a minha existência? Se é a vontade de Deus que eu o sirva no contexto familiar, sendo esposa e mãe, sendo esposo e pai, será que Ele não há de providenciar tudo o que é necessário para que isto se faça realidade em minha vida (e, nesse caso, indispensavelmente, uma pessoa, de carne e osso, provavelmente sem cavalo branco e com frieira nos dedos dos pés?) Ou será que sua Vontade para minha vida é outra? Pois é... Ouçamos a Deus, desdramatizemos as situações e sejamos felizes! E só vivendo a vontade de Deus, o nosso chamado específico, a nossa vocação, isso é possível. Abaixo, o texto do Pe. Fábio de Melo.



Na vida real, os amores não são como nos contos de fada. A pessoa escolhida para ser amada é bem concreta, com defeitos e qualidades. Aos quinze anos, espera-se que o príncipe encantado venha montado num cavalo branco. Aos vinte, a exigência torna-se menor: o cavalo pode ser pardo. Aos vinte e cinco, admite-se a possibilidade de que o cavalo nem é mais necessário, pode vir num jegue mesmo! É mais ou menos assim que as expectativas vão se acomodando dentro do coração da gente à medida que o tempo passa. Quanto maior o horizonte de possibilidades, maiores são as exigências que fazemos. Isso nos faz lembrar as palavras do filósofo francês Sartre: “A angústia nasce das possibilidades”. Ter mais de uma opção faz que o coração se divida para exercer a escolha. É mais ou menos isso que o seu coração tão jovem experimenta quando ele tem que escolher alguém a quem você dedicará os seus afetos. E você não pode negar que, de alguma forma, você participa deste grande leilão de amores, onde prevalece a lei da oferta e da procura: às vezes, você se oferta; às vezes, você procura; outras, entra em liquidação. E assim vai. É muito comum nos dias de hoje encontrar meninas e meninos que, aos 17 anos, já se sentem na liquidação. Passaram por inúmeros “proprietários” e, depois, foram devolvidos. Provaram a triste e dolorosa experiência de sentirem-se descartados como se fossem objetos de consumo que, depois de usados, são jogados fora. 
O mito do amor romântico. Assim segue a vida, fortemente marcada pelos signos do amor romântico, onde mocinhas acorrentadas na torre ansiosamente esperam pelos príncipes que virão em seus poderosos cavalos brancos para libertá-las da condição de acorrentadas. É interessante que, no mito do amor romântico, a força arrebatadora do amor sempre vence a altura das torres e os projetos ardilosos de maquiavélicas madrastas. O beijo final é a concretização feliz de um processo de luta e de busca que parece ser metáfora do sonho humano de, um dia, finalmente descansar nos braços de um amor eterno. É justamente por isso que essas histórias permanecem vivas no inconsciente coletivo, visto que expressam nosso desejo de ser personagens de conto de fadas. 
Que seja eterno. Mas a vida é real e, por ser real, os cavalos não são tão brancos, os príncipes não são tão belos e as princesas têm frieiras nos dedos dos pés. No momento em que percebemos a inadequação entre o sonho e realidade, descobrimos que o amor que pensávamos que tínhamos pelo outro na verdade não passava de uma projeção de carência e idealizações. Não podemos nos esquecer de que o amor humano só é possível a partir da precariedade. Somos a mistura de qualidades e defeitos, de belezas e feiúras. O amor só é verdadeiramente consistente no dia em que descobrimos o que o outro tem de melhor e de pior. O problema é que, na projeção de nossas necessidades, cegamo-nos para o real, para o verdadeiramente possível. Com isso, passamos a esperar o que não existe, o que não se dará justamente por estar fora do horizonte de nossas possibilidades. Portanto, o seu príncipe tão esperado pode até existir. E a sua princesa toda desejada pode estar escondida em algum lugar, mas por favor, seja realista! É preciso baixar as expectativas. O amor de sua vida virá, mas não creio que seja tudo isso que você espera. Cavalos brancos são muito raros nos dias de hoje. É mais fácil o seu príncipe chegar num fusquinha azul clarinho modelo 67. E a sua princesa, até creio que ela esteja esperando por você, mas não que ela esteja numa torre, envolvida numa atmosfera de encanto. É mais provável encontrá-la atrás de um balcão de padaria ou até mesmo no caixa de supermercado mais próximo. Mas não tem problema. Embora os moldes sejam diferentes dos contos de fadas, vocês também têm o direito de viverem felizes para sempre! (Pe. Fábio de Melo, scj)