16 de março de 2013

Qual o critério para receber algo de Deus?




Somos seres humanos dotados de vontades e necessidades. Provérbios 16, 1 afirma que cabe ao coração do homem formular projetos em seu coração, mas do Senhor é que vem a resposta. O versículo 9 afirma que o coração do homem dispõe seu caminho, porém é Deus que dirige seus passos! Mas não devemos entender que isso acontece de forma determinista, como se Deus tivesse "trancado" o homem nos desígnios Dele! Eu não acredito na expressão que reza: "Era pra ser! Era o destino!" Não entendo Deus como a "mão por dentro do fantoche", mas como um Pai que de fato, vigia os passos do filho pequeno que vai aprendendo a caminhar, deixa que ele vá onde quiser, protege-o de cair às vezes (outras não), e vez por outra interfere na condução do caminho, para o bem desse filho. Eu acredito que Deus criou o homem para ser livre.
Sim, Deus tem um plano para nós, tem missões pra nossa vida, mas deixa a cargo do nosso SIM, deixa livre o nosso caminhar, somente guia nossos passo, como afirma o livro de Provérbios citado acima. Entretanto, é lícito querer e pedir! Sonhar, desejar, planejar... tudo isso faz parte do que define ser gente! E pedir, clamar a Deus, significa não excluí-Lo de nossa vida, é contar com Ele, esperar por Ele! 
Não pensemos que pedir a Deus significa querer impor nossa vontade em detrimento da Vontade Dele. De maneira nenhuma! Como não conhecemos Seus desígnios, vamos pedir! Por que não? Vamos pedir sim! Ele é nosso Pai, podemos contar com Ele! Vamos pedir, vamos buscar, procurar, bater, pois Deus é Pai, e um bom Pai!
Quando eu era pequena, tinha muito medo de rezar aquela parte do Pai Nosso “Seja feita a Vossa Vontade, assim na terra, como no céu”. Levava a oração tão à sério que achava que, se eu falasse essa frase: já era! A Vontade de Deus ia acontecer como num passe de mágica sem que eu pudesse fazer nada para impedir e ficava assustada, pois temia que Deus fosse querer algo que pudesse me deixar triste, por exemplo: que meus pais morressem, que tivesse que mudar de escola, que meu presente de natal não fosse o patins que eu tanto queria... Sem saber, eu já sabia que a Providência de Deus rege o mundo, mas ainda não conhecia a Sua infinita bondade... Foi só quando fui me aproximando mais e mais de Jesus foi entendendo que a Vontade Dele podia ser fonte de prazer para mim (Salmo 39,9), um alimento que podia nutrir minha vida (Jo 4, 34) e que só estando nela é que eu poderia fazer parte de sua família ( Mt 12, 50) e entrar no Reino dos Céus (Mt 7, 21). Vale a pena ler a parte do Catecismo da Igreja Católica que trata da petição do Pai Nosso “Seja feita a Vossa Vontade” (§ 2822-2827).
Precisamos confiar que a Vontade de Deus É A MELHOR! Mas mesmo assim, eu insisto, podemos pedir! Optemos sempre por estar nela, assim como nos deu o exemplo Jesus no horto das Oliveiras, que pediu, clamou, suplicou mas se conformou à Vontade do Pai (Lc 22, 42). João ensina que se alguém honrar a Deus e cumprir a sua Vontade, Ele o atende (Jo 9, 31), e o atende de maneira infinitamente superior ao que foi pedido! Logo de cara, só pelo fato de pedirmos, já ganhamos o que de melhor poderíamos pedir: o Espírito Santo! Imagine aqui comigo uma situação: você se dirigir a alguém pedindo um favor, e de cara, antes de mais nada, ganhar um baita de um presentão? “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celestial dará o Espírito Santo aos que lho pedirem.” (Lc 11, 13)

É assim que o Pai nos trata! Peçamos, pois o simples pedir configura um voltar para o Pai (CIC § 2629). Dom Terra sempre dizia (nas homilias e palestras que já participei com ele) que quem pede com fé, na verdade LOUVA, pois dá um passo fé, pois reconhece que Deus pode! Acredita na capacidade de Deus de agir! Confia que Ele se importa com nossas causas. E isso engrandece o Senhor! Do contrário, nem perderia esse tempo indo atrás de Deus, não é? Cada vez mais tenho aprendido que a fé é uma lisonja a Deus: Ele fica tocado com os que creem. E aquele que pede tem que ter fé, do contrário, se não acredita que Ele pode realmente fazer alguma coisa a respeito, nem pediria...
O ditado popular afirma: “Quem não chora, não mama”. Nesse sentido eu reflito: “Quem não ora, não ganha!” Indo um pouco mais além: “Quem não pede em oração, não se santifica, não recebe o que precisa, não interage com Deus!”
Outro dia eu conversava com meu marido Juliano sobre esse trecho do Evangelho:
Eu vos digo: pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Pois todo aquele que pede, recebe; aquele que procura, acha; e ao que bater, se lhe abrirá. (Lc 11, 9-10)

E nós dois analisávamos: Qual o critério para receber?
(     ) boniteza
(     ) santidade
(     ) maturidade
(     ) merecimento
(  X ) PEDIR

O que fazer para achar?
(     ) sentar
(     ) se conformar
(     ) ficar parado
(     ) GPS
(  X ) BUSCAR

Como abrir?
(     ) com a força da mente
(     ) gritando
(     ) chutando
(     ) arrombando
(  X ) BATENDO

Então vamos pedir, vamos buscar, vamos bater! Em Lucas 18, 1-8, Jesus “propõe uma parábola para mostrar que é necessário orar sempre sem jamais deixar de fazê-lo” e conta a história da viúva que “encheu o saco” do Juiz até conseguir o que queria. Tem que “correr atrás”, pois a atitude de indiferença com a capacidade de Deus agir não ajudará em nada! Ir até o Senhor, pedindo, procurando, batendo em sua porta! Devemos nos achegar ao seu trono de graça CONFIANTEMENTE para alcançarmos misericórdia e ajuda oportuna! (Hb 4, 16) Não podemos abrir mão de insistir!
Por outro lado, penso que devemos nos colocar com maturidade diante do Senhor. Quando digo mais maturidade quero dizer sem desespero, como às vezes ouço o meu filho me pedir o que quer: "Por favor! Por favor! Por favor! Por favor! Por favor! Por favor!", e como às vezes eu repito na oração ao Senhor: "Por favor! Por favor! Por favor! Por favor! Por favor! Por favor!" Isso só demonstra o quão infantis muitas vezes somos!... Isso seria talvez, no fundo, duvidar das boas intenções do Senhor conosco, da sua capacidade de nos ouvir e de nos dar o que é melhor para nós. Precisamos aceitar que a resposta a nossa oração pode ser sim, não, ainda não, talvez... ou mesmo um “já já eu te respondo, aguarde”!
Precisamos pedir, mas se o objetivo é receber, precisamos pedir direito, buscando aquele equilíbrio entre a insistência e maturidade: nem no extremo da indiferença, nem no extremo do desespero infantil. São Tiago tem toda a razão quando afirma: Pedis e não recebeis pois pedis mal, como fim de satisfazerdes as vossas paixões. (Tia 4, 3) É aí que entra a relação de confiança: “Senhor, estou pedindo, mas confio que o que se dará disso, será o melhor para mim, e vou aguardar um retorno Seu”. Existiu uma pessoa especial que rezou assim: “Eis aqui a serva do Senhor: faça-se em mim, segundo a Vossa Vontade!”...
Eu, pessoalmente, sou “pidona”, pois minha relação com o Senhor é mesmo de Pai e filha. Mas, como acho que já não estou mais na infância da fé, tenho buscado crescer em confiança e pedir com educação e carinho, com jeitinho pra Ele, confiando que Ele ouve, contando que me dê o que eu peço e, se não me der, que me conduza pela sua Vontade. Não gosto quando escuto cristãos, católicos ou não, rezando como quem manda em Deus, usando expressões no imperativo como “Eu determino” isso ou aquilo em minha vida, como se Deus tivesse que se curvar à minha “suposta fé”. Meu modelo, nesse sentido, é a oração de Abraão por ocasião da resolução divina de destruir Sodoma e Gomorra. Leia em Gen 18, 20-33 a classe, a elegância, a educação de Abraão com o Senhor! É assim que devemos pedir! Detalhe: o pedido de Abraão em oração nem foi atendido, mas sua amizade com o Senhor e as promessas do Senhor cumpridas em sua vida deixam claro que o que mais importa, muitas vezes nem é conseguir o que queremos de Deus! Precisamos sim ralar e orar, agir e pedir, mas precisamos ter a consciência que nos ensina Santo Inácio de Loyola: “Agir como se tudo dependesse de nós, sabendo bem que, na realidade, tudo depende de Deus”! E então, confiar e esperar Nele! Amém?