23 de outubro de 2011

De onde vem nossa capacidade de amar?


A Palavra de Deus traz uma ordem , eu diria "A" ordem que resume toda a adesão a Deus e ao Seu projeto:

"'Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento!’ 38Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo'." Mt 22, 37-39

João afirma em sua carta:  

"Não amemos com palavras nem com a língua, mas por atos e em verdade. Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê."1 Jo 3, 18 - 4, 20

Entretanto, deparamo-nos com nossa incapacidade de amar a Deus, ao Outro e até a nós mesmos. "Não consigo amar como Jesus me pede! Não consigo perdoar! Isso é amor? Se digo que amo, por que trato assim as pessoas? Porque faço isso comigo mesma?"

Parece-nos tão difícil amar! 

É fácil amar a Deus pelo que Ele é e faz, mas dificílimo amá-lo em atos e em verdade, cumprindo sua Palavra, buscando a santidade, vivendo em oração... 

É fácil amar a mim mesma quando aprecio minha opinião mais que a dos outros, quando justifico todas as minhas atitudes, mas é dificílimo amar a mim mesma a ponto de deixar velhos hábitos que me fazem mal e até me levam a pecar, maculando minha dignidade de filha de Deus. 

É fácil amar o Outro quando este Outro retribui o meu amor, é uma pessoa boa, agradável e honesta, mas é dificílimo amar o Próximo que não tem consideração por nós, que nos magoa, que é antipático e 'pecador' aos nossos olhos.

Sendo o amor tão difícil de empreender, muitas vezes me perguntei em minhas orações: "Porque Jesus exige que amemos quem erra conosco? Oh, Senhor Jesus, como é que eu vou amar aquele que é meu inimigo, que me persegue, que me prejudica? Porque eu sou "obrigada a amar", por força de mandamento, se o Senhor sabe que por mais que eu tente, eu não consigo perdoar?"... Muitas perguntas...


E a resposta me veio quando li a Carta Deus Caritas Est, do Papa Bento XVI. No parágrafo 14 ele diz:

"O mandamento do amor só se torna possível porque não é mera exigência: o amor pode ser "mandado" porque antes, nos é dado." (cf 1 Jo 4, 7 : "Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus".)

E continua no páragrafo 17:

"Deus não nos ordena um sentimento que não possamos suscitar em nós próprios. Ele nos ama, faz-nos ver e experimentar o seu amor e, desta "antecipação" de Deus pode, como resposta, despontar também em nós, ao amor". 

E qual seria o segredo para superar nossas dificuldades em amar, em atos e em verdade, a mim mesma e ao Próximo? Para ser amor, devo me aproximar da fonte do Amor, ou seja, devo me aproximar de Deus, que é Amor (1 Jo 4, 8). O Papa aprofunda essa análise no parágrafo 18 da referida Carta:

"Revela-se, assim, como possível o amor ao próximo no sentido enunciado por Jesus, na Bíblia. Consiste precisamente no fato de que eu amo, em Deus e com Deus, a pessoa que não me agrada ou que nem conheço sequer. Isto só é possível realizar-se a partir do encontro íntimo com Deus, um encontro que se tornou comunhão de vontade, chegando mesmo a tocar o sentimento. Então aprendo a ver aquela pessoa já não somente com os meus olhos e sentimentos, mas segundo a perspectiva de Jesus Cristo. O Seu amigo é meu amigo. (...) Eu vejo com os olhos de Cristo e posso dar ao outro muito mais do que as coisas externamente necessárias: posso dar-lhe o olhar de amor de que ele precisa. Aqui se vê a interacção que é necessária entre o amor a Deus e o amor ao próximo, de que fala com tanta insistência a I Carta de João. Se na minha vida falta totalmente o contato com Deus, posso ver no outro sempre e apenas o outro e não consigo reconhecer nele a imagem divina. (...) Só o serviço ao próximo é que abre os meus olhos para aquilo que Deus faz por mim e para o modo como Ele me ama. Amor a Deus e amor ao próximo são inseparáveis, constituem um único mandamento. Mas, ambos vivem do amor preveniente com que Deus nos amou primeiro. Deste modo, já não se trata de um "mandamento" que do exterior nos impõe o impossível, mas de uma experiência do amor proporcionada do interior, um amor que, por sua natureza, deve ser ulteriormente comunicado aos outros. O amor cresce através do amor. O amor é "divino", porque vem de Deus e nos une a Deus, e, através deste processo unificador, transforma-nos em um Nós, que supera as nossas divisões e nos faz ser um só, até que, no fim, Deus seja "tudo em todos". (1 Cor 15, 28)."

Depois que li Deus Caritas Est, meu entendimento da Palavra de Deus que venho lendo e questionando a tantos anos se iluminou. O Magistério da Igreja veio mesmo em meu auxílio, carregado de sabedoria e dos  esclarecimentos que meu viver tanto necessitavam. 

Depois que li Deus Caritas Est, compreendi que o amor deve ser o centro da minha vida, meu maior empreendimento, minha maior conquista. Que  amar a mim mesma é um  reflexo do amor que recebo de Deus, e de fato deve ser a medida evangélica do amor que devo exercitar pelo próximo. Que é possível amar triplamente (a Deus por primeiro, a mim mesma da maneira que me porei a amar o Outro), ser tudo na Igreja como dizia Santa Terezinha, ser o amor, se Dele eu não me afastar. Que é possível amar o Amor, em atos e em verdade, como gritava São Francisco pelas ruas de Assis e como de fato fez, com a doação da sua vida pelo próximo.

Depois que li Deus Caritas Est, fiquei sem um argumento plausível para não amar, pois tirei o foco da minha dificuldade de obedecer o duplo mandamento do amor e voltei meus olhos para a essência e poder de Deus, de onde vem nossa capacidade de amar. Conto com esse "amor que vem de Deus" e sigo lutando para agradá-Lo, pois sei que a Caridade é o que restará Naquele dia em que veremos o Amor face a face (1 Cor 13). Sei que o amor exercido nesta vida será o critério para provar que amei a Deus quando chegar a outra fase da eternidade.