13 de abril de 2011

Retiro da Boa Morte: só temos o "agora".

Toda Quaresma ou Advento, gosto de fazer a experiência do "Retiro da Boa Morte", ensinado por Dom Bosco aos salesianos. Consiste em ter em mente a possibilidade iminente da morte, ou, nas palavras de uma grande amiga (que Deus a tenha em bom lugar), ter em mente que "para morrer, basta estar vivo".

Já faz algum tempo que tento pensar na morte como fazia São Francisco, como uma irmã. Tento ter em mente que não posso deixar nada mal resolvido, para concluir depois, pois não tenho como ter certeza de estar viva a não ser no 'agora'. O salmista afirma que a vida é como um sopro (Sal 143, 4). Jesus já dizia para aquele que achava que estava seguro para o futuro que o fato de se ter o celeiro cheio não é garantia de nada se à noite viessem pedir conta de sua vida, até o chamou de louco por pensar assim (Lc 12, 19s). De fato, o roqueiro está certo quando afirma que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, por que se pararmos para pensar, na verdade nada nos garante que haverá. Repito: só temos o 'agora'. 

É justamente nisso que consiste o Retiro da Boa Morte, em nos "prepararmos" periodicamente para este momento com esta 'irmã' incompreendida e muitas vezes temida. O fio condutor desta experiência é o questionamento: eu estou preparado para morrer? O intuito desse retiro é, de maneira bem pragmática, como uma grande faxina, deixar tudo pronto para o momento de nosso encontro com Jesus na morte. E esse deixar tudo pronto alcança vários níveis.


O primeiro nível ( e o mais importante) é a faxina espiritual. Um amplo e detalhado exame de consciência, remexendo em todas as gavetas e caixas de nossa alma, organizando tudo o que está "fora do lugar". Com ajuda do Espírito Santo, que tem a capacidade de "inundar" cada recanto do nosso interior, ir tirando toda a poeira das velhas mágoas e antigos ressentimentos, separando todas as pedras das nossas falhas com os outros, todo entulho dos nossos maus hábitos para podermos jogar tudo o que não presta para fora de nós, numa boa Confissão. A imagem que me vem à mente é de uma igrejinha em reforma, com a sacristia toda desarrumada, os bancos empoeirados, as janelas quebradas, telhado aberto, o sino derrubado, papéis, pedras, folhas secas... Sim, pois nós somos Templos do Espírito Santo (1 Cor 6, 19) e essa igrejinha somos nós. A Quaresma, o Advento, estes tempos tão especiais do Ano Litúrgico sempre são uma grande oportunidade para reformarmos esse Templo tão querido para Deus e o Retiro da Boa Morte é a maneira prática de colocarmos a mão na massa, tendo em mente que a boa Confissão é reconciliação com uma Pessoa, Jesus (2 Cor 5,20), e não simplesmente reciclagem de sentimentos com o intuito de nos sentirmos limpos e puros. O contato com Nosso Senhor, com seu amor, sua misericórdia é que realiza essa reforma em nós. Voltamos ao primeiro amor, nos sentimos apaixonados de novo, estamos motivados a recomeçar. É como aquele rapaz que antes era sempre desleixado e, ao se apaixonar pela menina, passa a ficar "cheirosinho" e "arrumadinho", para agradá-la. Ou aquela dona de casa que era desmotivada em arrumar e limpar sua casa velha e bagunçada, mas que tendo-a reformado e redecorado, se empolga em mantê-la sempre perfumada e com as coisas no lugar.

 Juntamente com o propósito da Confissão (que consiste no firme propósito de não cometermos aquele pecado confessado de novo) e com a Penitência ordenada pelo sacerdote (que é o meio pelo qual tentamos, diante de Deus e da comunidade reparar o mal que nosso pecado causou), poderíamos passar para o 2º nível de faxina, aquele que eu chamo de faxina relacional, que é a "arrumação" das nossas relações sociais. No Evangelho de Mateus, Jesus aconselha a nos reconciliarmos com nossos irmãos e até mesmo com nossos adversários antes de nos colocarmos diante do altar com alguma oferta (Mt 5, 23-26). Como é que estaríamos preparados para morrer se deixássemos coisas pendentes com as pessoas, especialmente as que amamos? Como seria triste se partíssemos brigados com aquelas pessoas que dão sentido às nossas vidas! Por isso a Palavra nos ensina: não se ponha o sol sobre o vosso ressentimento (Ef 4, 26).  Busquemos reconstruir nossas relações com todos, em primeiro lugar nossos familiares, mas também nossos amigos, nossas comunidades e até mesmo nossos vizinhos, colegas, conhecidos, chegando até aos que se enquadrarem na categoria "inimigos". Esta última inclui as pessoas que das quais não gostamos ou que por algum motivo, não gostam de nós. Através do diálogo, de um pedido de desculpas nosso, de uma visita, um telefonema, email... o que o Espírito Santo nos inspirar, que sejamos capazes de dar o 1º passo nesse reencontro. Que possamos ir atrás de nossos pais, irmãos, aquele amigo esquecido, que revitalizemos nosso namoro/casamento, assumamos uma postura diferente com nossos filhos... Dentro de nossa história de vida e de nossa situação particular, o Espírito vai revelar as pessoas que precisamos buscar, já ausentes ou ainda presentes, próximas ou distantes, nem que seja ao menos em oração. Mesmo que não tenhamos sucesso em 100% dos casos, que não nos furtemos de tentar e, no que depender de nós, façamos tudo para estarmos bem com todos (Mt 5,43-45 e Gal 6, 9s).

O 3º nível seria a faxina do tempo. Basta uns poucos minutos meditando para percebermos como perdemos nosso precioso e cada vez mais escasso tempo em coisas que não nos acrescenta nada, ou pior, acrescenta coisas negativas e nos impede de sermos mais produtivos, mais serviçais, mais piedosos, mais caridosos, mais presentes na vida de quem amamos!...É só analisar: quanto tempo passamos no computador, no celular ou na televisão e, em contrapartida, quanto tempo passamos com nossos pais (ou filhos, ou cônjuge), ou ao ar-livre, ou em oração? Será que temos tido sabedoria na utilização de nosso tempo, ou temos priorizado atividades secundárias? Ou será que nossa vida tem sido só trabalho, trabalho, trabalho, e não nos tem sobrado nada para família, amigos, comunidade, descanso, lazer? Será que foi para isso que Deus nos criou: para acordarmos cedo, irmos trabalhar, voltarmos só de noite cansados, loucos para dormir para no outro dia recomeçarmos a mesma rotina? Será mesmo só isso o sonho de Deus para nós, para nossa vida? E nossa agenda? Ela inclui mais pessoas ou compromissos além dos que se refere a nós mesmos? Essa talvez seja a faxina mais difícil para organizarmos, porém a mais necessária e urgente para empreendermos. Já que a vida é sopro, precisamos vivê-la bem. Como seria se, ao encontrarmos com Jesus na morte, assistíssemos o filme da nossa vida e percebêssemos que, como diria o poeta Francisco Otaviano, apenas tivéssemos passado pela vida e não vivido de fato, intensamente, dando de nós o melhor para os outros e para o mundo... Que decepção, que constrangimento... A Quaresma ou o Advento e o Retiro da Boa Morte é ocasião de reflexão. Replanejemos nossas prioridades em todos os níveis: espiritual, afetivo, profissional, comunitário, etc. Reorganizemos nossas agendas, nossas listas de tarefas diárias, nossas metas para o futuro, pois só temos o 'agora'.

Por fim, em 4º lugar, façamos uma faxina material. Quando minha avó morreu, minha mãe foi até sua cidade natal para o enterro. Ela ficou um pouco entristecida com a maneira com que trataram as coisinhas da vovó. Ela sempre era tão organizada, tão cuidadosa e por fim, as pessoas não tiveram o mesmo cuidado na hora de encaminhar as coisas...Às vezes nos apegamos tanto a objetos materiais, mas essa meditação sobre a "irmã Morte" coloca em cheque este apego: e se morrermos hoje?  Como é que as pessoas vão achar nossos pertences: tudo organizadinho e limpo, ou seria uma vergonha para nossa memória? Como anda nossas gavetas, armários? Daríamos muito trabalho para os que fossem despachar nossos pertences? Eles achariam coisas comprometedoras escondidas? Se morrêssemos hoje, faria sentido termos guardado às vezes até de forma egoísta certos objetos sem que eles tivessem tido a chance de serem úteis para alguém (até mesmo para nós!)? A Quaresma é um tempo de oração, jejum e esmola. O Advento igualmente nos provoca essa reflexão. O Retiro da Boa Morte deve finalizar com uma grande organização dos nossos pertences, nosso espaço, nosso quarto, casa, nosso carro, nosso escritório,  nossos arquivos no computador... Para a nossa própria libertação do apego e egoísmo e para o bem do próximo. São Vicente dizia que o que está sem uso em nossas casas, pertence ao pobre. É provável que não seja possível se arrumar a bagunça de anos em um dia só, mas um pouquinho a cada dia é possível para todos. Uma gaveta por dia, uma prateleira por dia até ter tudo sob controle, limpo e organizado. O lixo deve ir embora sem dó nem piedade, não nos apeguemos a porcarias sem utilidades, lembremonos da "irmã Morte" e nos questionemos se é realmente necessária a permanência de tal objeto. Santa Tereza dizia que um dos segredos da felicidade nesta terra consiste em possuir poucas coisas. O que você tem dúvida se deve doar ou não, jogar fora ou não, faça um teste: guarde por um ano numa caixa lacrada: se em um ano você não abrir essa caixa, pode jogar fora ou doar sem crise de consciência! Aquelas roupas ou sapatos que não usamos mais, mesmo que a gente goste, não vamos reter sem uso: pensemos em como ela pode ser útil para outra pessoa. Sugiro para esta etapa um livro que me ajudou muito: Organize-se, de Donna Smallin (http://migre.me/4eONl). Organizar-se materialmente pode mudar, renovar nossa vida espiritual, eu sou testemunha. Adailton Batista, missionário na Comunidade Canção Nova dá a dica: "O demônio se esconde na sujeira, e na desordem! Ele é asqueroso e quer colocar entulhos em nossa alma e em nossa casa… Portanto livre-se já de toda a bagunça e sujeira de sua casa, trabalho e ambientes de sua responsabilidade" (Leia mais em http://gentedefe.com/adailton/?p=1953).


Que este Advento que se inicia seja oportunidade para que nós estejamos mais leves, preparados para a vinda de Jesus, para a celebração da memória de sua Encarnação no meio de nós no Natal, que estejamos preparados para sua vinda na Parusia ou em nossa morte.