20 de abril de 2015

Desculpa tomar seu tempo, mas precisava te falar!

O Papa Bento XVI um dia se desculpou numa entrevista em que os organizadores tinham destinado a ele tão pouco tempo para falar naquela ocasião que ele iria optar por falar das coisas "que são" em detrimento das coisas "que não são". Então já inicio esse texto me desculpando:



Precisava te falar sobre o bem, sobre fé, sobre o que realmente importa! Optemos sempre por falar das coisas "que são": verdade, vida, caminho, amor, Jesus, Jesus, Jesus!... Seja num vídeo, seja num twitter, seja no face ou no blog. Seja na escola, na balada, no esporte/academia, no supermercado, no almoço da família...

São Paulo afirmava aos Coríntios: Eu cri, por isto falei (2 Cor 4, 13). Nós cremos? Jesus faz parte da nossa vida? Nós acreditamos, concordamos com o que Ele propõe nos Evangelhos? Nós temos fé de que Ele não está morto mas vive e voltará? Temos confiança de que Ele nos ama, cuida de nós e quer que todos se salvem? Nossa vida está permeada do Evangelho? Então devemos falar, oportuna e inoportunamente (2 Tim 4, 2), sempre com educação e paciência, simplesmente por que isso faz parte de nossa vida, por que isso é essencial para nós.

Muitas vezes, por respeito humano nos calamos, nos omitimos ou até disfarçamos nossas convicções traindo a nós mesmos e também Aquele que cremos. O livro do Eclesiástico nos traz muitos versículos preciosos sobre esse tema, dos quais destaco os seguintes:

“Meu filho, aproveita-te do tempo, evita o mal; para o bem de tua alma, não te envergonhes de dizer a verdade, pois há uma vergonha que conduz ao pecado, e uma vergonha que atrai glória e graça. Em teu próprio prejuízo não te mostres parcial, não mintas em prejuízo de tua alma. Não tenhas complacência com as fragilidade do próximo, não retenhas uma palavra que pode ser salutar, não escondas tua sabedoria pela tua vaidade. Pois a sabedoria faz-se distinguir pela língua; o bom senso, o saber e a doutrina, pela palavra do sábio; e a firmeza, pelos atos de justiça. Não contradigas de nenhum modo a verdade.” (Eclo 4, 23-30)

Precisamos assumir que, pelo Batismo, temos o dever de anunciar e denunciar. Não é fácil ser profeta, mas se não falarmos as pedras hão de falar! (Lc 19, 49). Sabemos que o mundo e os que são do mundo não vão gostar, mas felizmente temos liberdade religiosa e de expressão em nosso país e temos que aproveitar! As trevas nos odiarão por falarmos de luz, mas não podemos calar. Uma amiga uma vez me disse e disso eu nunca me esqueci: “o mundo não vai calar o pecado, não vai calar a violência, não vai calar a promiscuidade... e nós é que temos que silenciar?” De jeito nenhum. Me desculpa, mas eu precisava te falar de fé!

Não podemos calar e temos que nos preparar para as consequências desse falar. O discípulo não é maior o que o Senhor e se perseguiram Jesus, se o hostilizaram, se o recriminaram, prenderam e mataram, precisamos saber o que nos espera. “Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como sendo seus. Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia. Lembrai-vos da palavra que vos disse: O servo não é maior do que o seu senhor. Se me perseguiram, também vos hão de perseguir” (João 15, 19-20). “Sereis entregues aos tormentos, matar-vos-ão e sereis por minha causa objeto de ódio para todas as nações. Muitos sucumbirão, trair-se-ão mutuamente e mutuamente se odiarão. Levantar-se-ão muitos falsos profetas e seduzirão a muitos. E, ante o progresso crescente da iniqüidade, a caridade de muitos esfriará. Entretanto, aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mt 24, 9-13). Seremos considerados chatos, inconvenientes, caretas, carolas, fanáticos, fundamentalistas, mas precisamos falar, precisamos anunciar, precisamos postar, comentar, precisamos denunciar e anunciar! Me desculpa, mas precisava te falar do que meu coração transborda (Mt 12, 34)!

No livro do profeta Jeremias, capítulo 20, versículo 7, há uma poesia que, descontextualizada, parece apenas uma grande declaração de amor ao Senhor: “Seduziste-me, Senhor; e eu me deixei seduzir! Dominastes-me e obtiveste triunfo.” Que lindo! A relação tão íntima do profeta com Deus! Mas se contextualizarmos esses versículos, perceberemos que se trata antes de um lamento, de uma queixa cheia de dor do profeta. Nos versículos seguintes, ele continua: “Cada vez que falo é para proclamar a aproximação da violência e devastação. E dia a dia a palavra do Senhor converte-se para mim em insultos e escárnios. E, a mim mesmo, eu disse: Não mais o mencionarei e nem falarei em seu nome.” (Jr 20, 8-9a)

Muitas vezes exercer o múnus de profeta é desgastante. Nadar contra a corrente pode ser desanimador. Se lermos a história de Jeremias, por exemplo, vemos que seu próprio povo, seus consanguíneos, seus amigos se irritaram com ele, o insultaram, o prenderam, açoitaram, jogaram-no numa cisterna e ele sofreu muito, inclusive prefigurando Jesus. Muitas vezes eu e você nos vemos nessa situação de sermos excluídos em nossa própria família, sermos insultados na vizinhança, zombados entre os amigos, perseguidos no trabalho. Gradativamente sofremos o martírio! O martírio da ridicularização de que tanto falava Bento XVI. E, para alguns irmãos, até mesmo o martírio vermelho mais cruel e violento como temos acompanhado na África e Oriente Médio.

Mesmo assim, vou insistir: Desculpa, precisava te falar de Deus! Que outra opção tenho? Que outra opção temos a não ser insistir nesse “assunto”? Pois conhecemos a Verdade! Conhecemos o Caminho! Conhecemos a Vida! Conhecemos a Luz! Nós vimos o Senhor! Somos suas testemunhas! Sabemos que Ele é poder, que Ele é misericórdia, que Ele é a única salvação! O Senhor vive em nós, queima em nós, nos movimenta, nos incomoda, nos inspira, nos exorta: como não falar? E o profeta Jeremias expressa isso muito bem: “Mas em meu seio havia um fogo devorador que se me encerrara nos ossos. Esgotei-me em refreá-lo, e não o consegui.” (Jr 20, 9b)

Por isso, meu irmão e minha irmã, eu te incito: FALA. Aproveite as oportunidades que Deus te dá e FALA. Aproveite os tempos e espaços que te são concedidos e leve o Evangelho, leve a Palavra de Deus. Se for o whatsapp, aproveite. Se for o twitter, então tuíte Deus mais que todo o resto! Se for a fila da padaria, na viagem de ônibus, no post do facebook, com o microfone do seu grupo de oração, no terço em família... FALA! ANUNCIA! Fale de Jesus, fale da Bíblia, fale da fé que você vive!

Obviamente é condição sine qua non para o anúncio a busca sincera em viver a Palavra, a intimidade com a Sagrada Escritura, a vida de oração pessoal, o serviço na comunidade, o testemunho de vida! O Santo Papa Francisco tuitou recentemente: “Podemos levar o Evangelho aos outros, se ele permear profundamente a nossa vida.” Se sua caminhada é instável, pelo amor de Deus: se cale. Procure primeiro viver antes de querer falar qualquer coisa. Como afirma o mainstream e com toda razão “as palavras convencem mas o testemunho arrasta”. São Francisco dizia: “Pregue sempre o Evangelho, e quando for necessário, use palavras.” Com que moral pretendemos ser profetas, alardeando os ciscos nos olhos dos outros e ignorando as traves dos nossos? (Mt 7, 5) 

Não se trata de sermos perfeitos, disso não seremos capazes nessa terra. São João afirma que aquele que acha que não tem pecado se ilude e é mentiroso (1 Jo 1, 8), mas se trata antes de lutar para não cair. Na oração do Pai Nosso, Jesus não nos ensinou a pedir “Pai, que não haja tentações na minha vida”, mas sim para que nós não caíssemos em tentação. Há uma luta dentro de nós entre o espírito e a carne e por causa disso não fazemos o bem que queremos mas sim o mal que não queremos (Rm 7, 19). Mesmo pecadores, devemos lutar para sermos dignos de anunciar a Palavra! Devemos desejar e buscar sermos perfeitos como o Pai Celeste é perfeito (Mt 5, 48). Devemos sempre nos arrepender, reconhecer nossos pecados na certeza de que “Deus é fiel e justo para nos perdoar os pecados e para nos purificar de toda iniquidade” (1 Jo 1, 9). Sim, eu sei, sou cheia de defeitos, luto muito contra minhas más tendências e caio frequentemente, mas desculpa: eu vou te falar de Céu, vou de falar de conversão, vou te falar de PHN (por hoje não vou pecar)!

Nossa fraqueza não pode ser desculpa para que nos omitamos da nossa obrigação de falar, de denunciar as obras das trevas e anunciar a bondade de Deus. As pessoas necessitam da Palavra! É como diz a música: “Tantas vidas a salvar, se não for por mim, por quem será?”! Precisamos sim, fazer de tudo para que sejamos “irrepreensíveis e inocentes, filhos de Deus íntegros no meio de uma sociedade depravada e maliciosa, onde devemos brilhar como luzeiros no mundo, a ostentar a Palavra da vida” (Fl 2, 15-16), tendo consciência da nossa miséria e confiando que Deus age em nossa fraqueza em favor de seus filhos dispersos e perdidos. Mas “como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão falar, se não houver quem pregue” (Rm 10, 14)? É preciso superar a timidez, o medo, as falsas humildades e assumir com coragem o anúncio daquilo que cremos e falar, escrever, teclar.

Pago um preço alto por ser fiel aos meus princípios e não me omitir. Dói a rejeição e a hostilidade, mas durmo em paz à noite. Eu sinto muitas vezes o temor de polemizar, de desagradar, mas tento fazer um filtro (pensando em utilidade e conveniência) e mesmo temendo ofender quem eu amo para ser autêntica e coerente, falo assim mesmo muitas coisas. Eu amo muitas pessoas das quais discordo e entendo que elas também tem o direito de discordar de mim e de manifestar essa discordância como quiserem, seja cara a cara, seja virtualmente. Não me ofendo e apenas espero reciprocidade... Vou pedindo desculpas, vou pedindo licença e vou falando, agradando ou desagradando, não posso me calar: ...“precisava te falar uma coisa!”...

Analiso constantemente minha conduta, meu testemunho e realmente me vejo em meio a grandes dilemas encarando minhas misérias e o quanto ainda sou indigna da Palavra que muitas vezes me vejo a anunciar, mas simplesmente não posso me calar e nem desistir, pois dentro de mim existe aquele fogo devorador de que “reclamava” Jeremias, vivo, incômodo que não me deixa em paz! Existe no meu coração uma Voz que não se cala e que me provoca quando vejo mentiras, injustiças, leviandades. Existe na minha mente uma Luz que não se conforma em assistir pessoas se destruindo no pecado, se desviando do Caminho que as fará verdadeiramente felizes e indo em direção às trevas.

E no mais, é nosso dever e salvação dá glórias e Deus e ser mensageiro de Sua Vontade e não das minhas fugazes opiniões: “Anunciar o Evangelho não é glória para mim; é uma obrigação que se me impõe. Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho! Se o fizesse de minha iniciativa, mereceria recompensa. Se o faço independentemente de minha vontade, é uma missão que me foi imposta (1 Cor 9, 16-17).

As coisas que vivi com o Senhor me “obrigam” a anunciá-Lo. É uma obrigação de amor, de gratidão, de consideração. Como não anunciar depois de tudo o que vivemos juntos, depois de tudo o que Ele já fez em minha vida e na vida de minha família? Como não anunciar a Palavra depois de tudo o que já vi o Senhor realizar no meio do seu povo? Então eu falo, me desculpa, mas eu vou falar. Perdoem-me os ouvintes, leitores, pessoas que convivem comigo. Preciso viver minha fé, e preciso falar de Deus. Eu O amo! Eu sou Dele e Ele é meu. Preciso falar e falarei.