23 de março de 2015

"Vai ter boicote!"


Entendo que em países democráticos qualquer mídia seja livre para apresentar a seu público o que achar conveniente do ponto de vista artístico, jornalístico ou até mesmo ideológico. Sou a favor da liberdade de expressão e aceito (dentro dos limites da lei e da ética) que as mídias sejam laicas e até ateias e não me surpreendo se forem também hostis à religiosidade, em especial ao cristianismo. Tenho tido uma expectativa negativa sobre os meios de comunicação de massa: já espero o pior deles. Seria desejável que os meios de comunicação social estivessem comprometidos com o bem comum, os bons costumes, a justiça e a verdade como orienta o Catecismo da Igreja Católica (§2498), mas sabemos que o compromisso maior é com a audiência a qualquer custo, em primeiríssimo lugar. Por trás de toda comunicação midiática, desconfio sempre de uma intenção publicitária e fico imaginando como é que eles estão faturando em cima do que apresentam. Cada vez mais percebo que a grande mídia está a serviço do mundo e não posso esperar dela uma visão cristã, não me iludo mais com isso.

 Mesmo assim, sob esse mesmo argumento da liberdade de expressão, acredito que podemos e devemos nos posicionar CONTRA a maneira como os mass media apresentam seus conteúdos, em especial a teledramaturgia, e questionar a visão artística que bate sempre nas mesmas teclas ideológicas (especialmente pelas redes sociais). Respeitar não é aceitar nem aplaudir... "É preciso combater o erro e amar o que erra", dizia Santo Agostinho. “Observai tudo e ficai com o que é bom” (1 Tes 5, 21), posto que “tudo me é permitido mas nem tudo me convém” (1 Cor 6,12), dizia São Paulo. Também o Salmo 100, 3 afirma: “Não proporei ante meus olhos nenhuma coisa má” já que, como Jesus exortava, “O olho é a luz do corpo” (Mt 6, 22).

Pois bem, diante disso, admito que eu, já há algum tempo, praticamente não assisto mais a TV Globo*. Nem mesmo o telejornalismo tem credibilidade pra mim. Gosto de assistir Globo Repórter, dependendo do assunto. Não suporto programas de auditório estilo Faustão, Luciano Huck, Vídeo Show, nos quais a entidade apenas se autopromove reciclando seus artistas e programas... Detesto Galvão Bueno (profissionalmente!) e na minha opinião, o Louro José devia ser o apresentador do Mais Você e a Ana Maria Braga, a boneca empoleirada! BBB então?! Não merece que se gaste nem os 140 caracteres do twitter com alguma crítica. Sempre fui telespectadora da TV Globo, mas diante da falta de inovação e classe, fui me cansando. Sempre gostei de novelas, sempre foi para mim um hobbie e um momento de entretenimento, de descanso, de lazer. Mas diante da teledramaturgia que essa emissora vem oferecendo ao longo dos anos, um produto que foi se deteriorando mais e mais, foi impossível não fazer uma análise mais crítica.

Vamos excluir a questão moral/religiosa apenas por um instante: o que uma dramaturgia como a que a Rede Globo tem oferecido ao povo brasileiro acrescenta a nós em termos de cultura, entretenimento, arte, humanismo, civilidade? Pouco, meus caros, muito pouco... possivelmente nada! Propõe-se um boicote pelas redes sociais, e a minha posição? Boicote sim! Sabemos que as artes muitas vezes retratam a sociedade mas, felizmente, não é a totalidade da sociedade brasileira que é como as novelas globais gostam de apresentar em suas histórias requentadas e previsíveis... Na minha casa existe até uma piada interna, piada pronta, que meu pai sempre repete por ocasião das estréias das novelas: “Para novelas da Globo, basta assistir o primeiro e o último capítulo”, pois o desenvolvimento é irrelevante. Dependendo do autor, já saberemos que haverá personagens com bordões, quais os atores e atrizes que irão atuar e até o nome da protagonista!

Além das costumeiras baixarias envolvendo golpes, traições, ódios, vinganças, chantagens, crimes, a bola da vez é a questão da ideologia de gênero, a campanha pela assimilação da união homoafetiva e a adoção de crianças por pares homossexuais pelo senso comum. A Rede Globo está empenhada em “vender” a idéia do que se convencionou chamar de “novas concepções familiares”. Ora, podem existir vários grupos e configurações familiares na sociedade, mas família enquanto instituição é formada por um homem, uma mulher e seus filhos. Em qualquer lugar do mundo, em qualquer época, em qualquer cultura, um homem, uma mulher e sua prole são identificados como família sem necessidade de reconhecimento por autoridade pública, estatutos ou qualquer legislação específica. Isso independe de religião.

Respeito pela liberdade das pessoas é básico para toda e qualquer situação, por toda e qualquer pessoa ou grupo de pessoas. Proteção de direitos civis seria até aceitável, mas descaraterização da instituição familiar por motivo de modernização de conceito é ideologia, apenas. Então me pergunto: qual a real intenção da emissora com o lobby lgbt? Como será que ela está faturando com essa campanha? Não venha me dizer que é por amor ao ser humano que se faz isso que ninguém vai acreditar, afinal, “o povo não é bobo”. Ou só é quando convém?  

Felizmente, assim como ninguém é obrigado a ser cristão e a viver sob o parâmetro do Evangelho, igualmente ninguém é obrigado a dar ibope ao que não concorda, ao que não agrada. O país é laico? Sim, graças a Deus. O público é laico? Não, senhor; não, senhora. Grande parte dos telespectadores ainda tem seus princípios religiosos e morais e se o Brasil não tem uma religião oficial, também não tem uma TV oficial, ditando norma social goela abaixo. Vai ter boicote sim e, se reclamar, vai ter terço, vai ter culto, vai ter Missa, vai ter campanha, vai ter tag e twittaço! Democracia é isso: não esperem mais unanimidade, estamos na era da diversidade! Vai ter boicote, vai ter reação, vai ter mimimi, vai ter reclamação, VAI TER CRISTÃO! O choro é livre e nós também (não é assim que se comenta nas redes sociais?).  

Felizmente somos livres! Existe uma frase que, embora seja atribuída a Clarice Lispecto, na verdade não se conhece a autoria. Essa frase resume bem o que penso: “Ainda bem que sempre existe outro dia. E outros sonhos. E outros risos. E outras pessoas. E outras coisas”. E eu acrescento: ainda bem que existem outras emissoras, outros canais! Tenho certeza que temos outras opções mais de acordo com nosso nível intelectual, cultural, humano, moral e espiritual! Temos outras histórias, outras músicas, outros livros, outros filmes, outras séries, outras atividades, inclusive provavelmente, outras novelas! Graças a Deus! O problema é que muitas vezes, nos contentamos com pouco, nos contentamos com a mesmice. Especialmente em se tratando de TV, aceitamos a mediocridade. A frase abaixo (neste caso, realmente de autoria de Clarice), foi dita para o Jornal do Brasil em 1967 e ilustra bem o que digo: 

“Não entendo. Nossa televisão, com exceções, é pobre, além de superlotada de anúncios. Mas Chacrinha foi demais. Simplesmente não entendi o fenômeno. E fiquei triste, decepcionada: eu quereria um povo mais exigente.”

É o que falta: um povo mais exigente. Bom, eu sou exigente. E sou livre. Vou criticar sim. Vou boicotar sim. Quero uma dramaturgia que entretenha sim, mas que agregue culturalmente. Quero respeito. Quero arte. Quero bom gosto. Quero valores elevados. Quero comédia inteligente e não apelativa. E amores verdadeiros. Rede Globo, sabia que existem casais que não se traem, que não se divorciam para viver uma paixão volúvel? Sabia que existe o “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe”? Sabia que, na vida real, existem pessoas que perdoam e não se vigam, que falam a verdade e que preferem se prejudicar a não manter a palavra dada? Existem sim, eu sou uma dessas pessoas e conheço várias outras. Quero me ver retratada, quero me identificar, quero minha fé respeitada. Rede Globo, sabia que existem cristãos que vivem com autenticidade sua fé buscando fazer o bem para a sociedade? Que nem todo padre é pedófilo ou larga a batina para ficar com alguma mocinha; que nem todo evangélico é ignorante ou só quer saber de dinheiro? Eu tenho plena convicção que o povo brasileiro cada dia mais não se vê retratado nessas novelas e o resultado natural da não identificação é o abandono.
Transcrevo uma postagem da cantora católica Vera Lúcia (retirado de sua página no Facebook): 

Se assistir “Babilônia” te gerar paz, concórdia, união, aceitação, harmonia familiar, tranquilidade, cultura de um país melhor, se criar em crianças e adolescentes mais vontade de estudar, valorizar seu país e pais... Se gerar isso, edificar a vida, a família… eu também vou assistir e divulgar! Se quisermos a presença de Deus em nossas vidas, não podemos concordar com caminhos contrários. O meu caminho é Jesus Cristo, sigo o que diz a Bíblia e em Apocalipse 17,5 como um mistério: “BABILÔNIA, A GRANDE, A MÃE DA PROSTITUIÇÃO E DAS ABOMINAÇÕES DA TERRA”. 

Assim, conclamo: boicote! Por questões religiosas? Sim, também por elas (e por que não?!), mas também por que meu cérebro e minha sensibilidade demandam mais.  

*Minha crítica é somente à Rede Globo? Obviamente não. 
Todavia para este post, preferi me limitar à esta emissora 
devido aos debates que tive com conhecidos e desconhecidos 
por ocasião da estréia da novela Babilônia.