14 de setembro de 2013

O diálogo no casamento


Escrevo hoje aos casais e a minha motivação é a grande quantidade de pessoas que tem me pedido oração por seus casamentos. E o interessante é que, pelo menos nesses casos em que as pessoas me procuram e relatam um pouco das suas dificuldades, 100% das crises tem uma causa comum: a falta de diálogo. Meu marido e eu, em 14 anos de relacionamento (um ano de namoro, um ano de noivado e 12 anos de casados), aprendemos (não sem muita labuta) que se relacionar sem dialogar é contra-producente, para dizer o mínimo. Graças a Deus, na caminhada de Igreja, o Senhor providencia sempre encontros para casais nos quais sempre é possível aprender a ser verdadeiros “ministros do sacramento do Matrimônio” através da oração, do carinho, da solicitude, mas especialmente, através do DIÁLOGO.

Nós já tivemos a oportunidade de viver por diversas vezes esses encontros um com o outro e os dois com Deus e podemos testemunhar como fez toda a diferença na nossa história. Como sempre, Deus em sua misericórdia, nos fazia lembrar os motivos que nos levaram a nos unirmos em uma só carne e nos conduzia a recordarmos tudo aquilo que nos levou a nos interessarmos um pelo outro. E mais, o Senhor nos ajudou a constatar que tudo isso ainda estava em nós! Melhor ainda, perceber que Ele já havia trabalhado muita coisa e que poderia acrescentar muito mais!

Hoje em dia, um pouco mais experimentados, nós aprendemos que a vida de casado não é apenas flores e arco-íris em nuvens cor-de-rosa, mas traz consigo os seus desafios, afinal, trata-se de unir duas histórias de vida distintas para forjar uma nova história, que não é nem a de um, nem a do outro as quais estávamos tão acostumados. Esse processo pode, às vezes, destacar mais os espinhos das flores e os ocasionais raios e trovoadas das nuvens cinzas... Isso aconteceu conosco e pudemos perceber que a principal causa dos desgastes, desentendimentos e mágoas residiam nos desvios do plano original, ou seja, ao invés de uma nova história, tentávamos juntos, cada um, escrever a sua. E sem contar pro outro! Aliás, o grande trunfo do exercício do DIÁLOGO para nós está centralizado justamente nessa expressão: “contar pro outro”. E contar com o outro!

É claro que isso tudo só é possível pela graça de Deus, pela consciência de que somos filhos de Deus e que Ele nos fez por amor e para o amor, mesmo nas dificuldades, principalmente quando vivemos em um tempo marcado pelo individualismo e egoísmo, no qual tudo, até as pessoas, são descartáveis. Sabemos que, como afirma a Palavra de Deus, a origem do amor é Deus (1 Jo 4, 7). E, se estamos casados, ainda mais essa vocação para o amor se evidencia em nosso dia-a-dia, pois o matrimônio é mais que uma mera escola de amor, está mais para um curso intensivo de como amar 24hs por dia, de segunda a domingo, sem pausas para folgas!

Muitos casais que nos procuram relatando suas crises matrimoniais são pessoas de Igreja, são pessoas de fé. Em vários casos, suas histórias (assim como a nossa) nasceram a partir de um encontro com Deus e se desenvolveram sob essa perspectiva divina, razão pela qual, devem se sustentar mantendo a visão espiritual do sacramento ao qual fomos, todos nós, chamados pelo Nosso Pai em Jesus, Nosso Senhor, no poder do Espírito. Não podemos jamais nos esquecer que somente com a ajuda Dele poderemos empreender o matrimônio de maneira autêntica e, nesse sentido, toda aprendizagem sobre DIÁLOGO poderá ser útil de fato. Não podemos perder de vista que só pela graça específica do sacramento do matrimônio é possível valorizar e aceitar o outro como Deus espera de que façamos...

Sabemos que tudo isso pode parecer ser teórico demais mas funcionou tanto conosco (meu marido e eu) que fazemos questão de expressar sempre que temos oportunidade! Com toda franqueza, a experiência do DIÁLOGO reconstruiu nosso matrimônio numa ocasião em que estávamos sem esperanças de que isso fosse possível, num momento em que estávamos até cogitando flexibilizar a indissolubilidade do que sempre havíamos acreditado que Deus tinha unido “até que a morte separasse”. Aprender e exercitar o diálogo realmente nos transformou como casal, mas também ultrapassou esse aspecto, nos transformou como pessoas. Aprendemos e experimentamos que FALAR CURA, OUVIR CURA, e acreditamos que o diálogo tem tanta eficácia quanto a oração no processo de evolução do ser humano para além da efemeridade dessa vida sempre tão mais curta do que desejamos...

Temos uma gratidão eterna em primeiro lugar a Deus que encaminha nossas histórias, e em segundo lugar aos Encontro de Casais que participamos na Igreja, por tudo aquilo que eles possibilitaram em nossas vidas, principalmente por nos mostrar a indispensabilidade do DIÁLOGO para uma relação, seja ela qual for, mas principalmente quando se trata da relação matrimonial. Aprendemos que a consequência inexorável do DIÁLOGO é a amizade que ultrapassa as superficialidades e transitoriedades e que sem ele, é impossível chegar ao coração do outro. Aprendemos que, quando se trata de casamento, se não houver amizade verdadeira, fruto do DIÁLOGO bem vivido, será impossível o amor verdadeiro, e o “na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza” ganhará status de conto de fadas utópico.

Assim, o que eu sempre aconselho é que busquemos aprender a DIALOGAR, a ouvir e a falar, sem cobranças, sem julgamentos, mas com acolhimento, simples aceitação do que o outro quiser ou precisar desabafar, expressar. Estranhamente encontro muita resistência à ideia. As pessoas não querem mais dialogar, não querem se abrir, não estão dispostas a ouvir. Penso que esta seja a razão pela qual o mundo de hoje está doente: as pessoas, deliberadamente, se fecham ao diálogo. Tem medo de se colocar numa posição vulnerável quando expressam suas opiniões e sentimentos. São incapazes de ouvir o outro sem preconceitos, com paciência e com interesse genuíno. Alguns se colocam na posição arrogante de monólogo, outros se fecham em seus silêncios, o resultado inevitável é o isolamento, tanto de quem fala, quanto de quem cala. Ambas as posturas num casal são paradoxais, pois denunciam um comportamento que só teria lógica a pessoas que estivessem só! Ora, um casal não é mais o “um” ou “o” outro dissociados, como dissemos acima, entretanto, quantos casais de almas solitárias e carentes existem por aí que, sem essa comunicação vital, observam dia após dia seus casamentos desmoronando...

Quando chegamos nesse ponto em que o diálogo não existe mais, a única saída é, em nossa inegável liberdade, analisar com toda franqueza se se quer que o casamento dê certo. Pois amor é decisão! A resposta sendo afirmativa, é preciso que saibamos que não conseguiremos sem DIALOGAR. É preciso ter a consciência de que, sem DIÁLOGO, o amor morrerá de fome, sede e solidão e o divórcio fatalmente se insinuará, até o ponto da insinuação se tornar imposição. Sem DIÁLOGO, veremos o que Deus uniu rachar, trincar, quebrar, se despedaçar, se destruir.  A falta de DIÁLOGO é o câncer do casamento. Muitas coisas podem ajudar um casamento (e desta destaco a oração), mas sem DIÁLOGO, um casamento jamais será uma união nos moldes de Deus, pleno. Se de fato existirem barreiras intransponíveis para que o casal dialogue, é hora de ceder, deixar o orgulho de lado e BUSCAR AJUDA. Seja num encontro para casais (como foi o nosso caso, do meu marido e eu), seja numa terapia de casais, seja numa pessoa de confiança e com sabedoria para fazer a mediação... mas busquem ajuda! Se esforcem, queiram, busquem, orem, orem muito, orem mais... e DIALOGUEM! Sempre com gentileza, educação, respeito e civilidade.  

Não adianta conversar com “Deus e o mundo”, amigas e amigos, familiares, padres, psicólogos e não conversarem UM COM O OUTRO! O empreendimento é complexo, pois necessita da adesão dos dois com o mesmo espírito, com a mesma abertura, na “mesma vibe”. Necessita de sabedoria e maturidade, para que não acabe em julgamentos, acusações ou brigas. Acontece muitas vezes de um querer e o outro estar fechado. Mas taí uma coisas pela qual vale a pena se esforçar! E eu acredito que aquele que sente esse impulso pelo DIÁLOGO foi escolhido por Deus para ser o “guardião” de sua relação matrimonial. É preciso que assuma esse posto e se torne mesmo o “arauto” do DIÁLOGO então! Se foi escolhido por Deus, será capacitado por Ele, não tenho dúvidas. O ideal seria que ambos assumissem a missão, mas se não for o caso, no que depender de nós, tentemos com todas as forças incentivar o DIÁLOGO com nosso cônjuge! O DIÁLOGO é a chave que abre os corações, tanto para quem fala quanto para quem ouve, e permite que saiam as mágoas, os ressentimentos, as incompreensões, e que entrem os esclarecimentos, pedidos de perdão, carinhos... O DIÁLOGO tem a força de destruir o negativo e construir o positivo na vida de um casal. O DIÁLOGO é instrumento de paz na relação. Insistamos no diálogo!

 Eu não afirmo tudo isso como quem “acha”, mas como quem “vive”. Nossa oração é que todos esses casais que nos procuram possam vivenciar o DIÁLOGO franco e aberto, e que essa experiência possa fazer aos dois tanto bem quanto fez (e faz) a nós e à nossa família. Que o Senhor ajude na abertura do coração de cada um, para que o DIÁLOGO produza frutos de reconciliação, amizade, melhor comunicação e “chamego”. Que a Sagrada Família possa fortalecer essas uniões para que o filhos possam ter a grande graça de crescer numa família amorosa, que testemunhe mesmo ao mundo o quanto é maravilhoso amar e perseverar no amor, que testemunhe que vale a pena lutar, mudar e se sacrificar pelos que amamos, afinal, sabemos que não há amor maior do que aquele que dá a sua vida por quem ama (Jo 15, 13). E cada vez que DIALOGAMOS em nosso casamento, creia, geramos vida em nós e no outro.