26 de dezembro de 2013

A experiência de ser salvo


Quando eu tinha 13 anos morava em Recife-Pe com a minha família. Numa ocasião, banhando no mar de Boa Viagem com meus irmãos me senti sendo carregada para trás pelo movimentar das ondas. Normal! Mas quando aguardava a próxima onda me empurrar em direção à areia de novo, aconteceu o inverso: o mar continuava a me sugar para mais longe da terra. Comecei a me assustar e tentei voltar andando para fora. De repente sentir faltar o chão debaixo dos pés, porém não me preocupei muito, comecei a nadar para voltar a conseguir pisar em algo. Nada! Nem saía do lugar, muito pelo contrário, vi meus irmão e outra criança como que "escorrendo" por uma espécie de "ralo" que tinha se formado pela lacuna dos arrecifes justamente no lugar que escolhemos para curtir a água quente daquele final de tarde. Quando vi os meninos passando rapidamente para trás de mim, comecei a ficar aflita. Tentei voltar para pegá-los mas tinha ficado muito fundo para mim e o movimentar das águas não dava trégua! Eram três crianças e eu e comecei a cogitar que estava me afogando, pois não estava mais conseguindo respirar em meio às brumas das ondas! De repente senti um puxão forte no meu maiô e cabelos simultaneamente e sentir voltar o fôlego. Depois de alguns instantes pude ver (embora com os olhos ardendo pela água salgada) uma espécie de gigante com um menino literalmente embaixo da axila (como quem leva uma pasta ou jornal), outros dois pequenos bracinhos presos fortemente por uma única e enorme mão (isso mesmo, dois meninos numa mão só) enquanto ele me levava pelas madeixas para a praia como aquela icônica figura do homem das cavernas que leva sua companheira para a sua gruta: era o salva-vidas! 
Chegando na praia ele jogou os quatro de uma vez na areia fofa e quente. Pegou rapidamente o rosto de cada um, verificou as bocas e narinas, deu um tapinha nas costas do menorzinho que tossia (que nem era meu irmão, mas um coleguinha recém conhecido no passeio) e depois, com toda autoridade, começou a dar uma enorme bronca, furioso conosco, esbravejando que a gente quase morreu, perguntando onde estavam nossos pais, se a gente era doido de entrar sozinhos na água aquela hora de descida de maré e blá blá, blá blá blá, blá blá... 
Eu estava tão agradecida e atônita que só sabia olhar para ele e dizer: "desculpa, obrigada! Desculpa, obrigada! Desculpa, obrigada!" 
Só quem passou pela experiência de ser salvo, especialmente de ser salvo por uma imprudência/burrice/erro seu, sabe a contrição e a gratidão que isso provoca! Só quem passou por essa experiência vai saber do que estou falando... 
Mesmo sendo uma comparação rude, transferi o sentimento dessa memória para a espiritualidade do que fez Jesus por mim, por toda humanidade, por cada um de nós!
O povo que andava nas trevas estava destinado a se perder definitivamente, por sua própria culpa, por sua própria imprudência/burrice/erro, *pecado*. O ser humano estava destinado à perdição, morte, fim. Mas Deus jamais permitiria que isso acontecesse! Chegou ao cúmulo da humilhação por amor (porque o amor tem isso: quando verdadeiro, não se importa em se humilhar) e veio à terra vestindo nossa carne. "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós!" (Jo 1, 14) Ele não se apegou à sua condição divina (OBS.: DI-VI-NA!!), mas se esvaziou dela, diz a Palavra: "A-NI-QUI-LOU-SE", assumiu condição de escravo e se assemelhou a nós, por amor. (Fil 2, 7-8) Aceitou ser embrião, feto, bebê, totalmente dependente, vulnerável, pequeno... porque amou tanto o ser humano que quis vir a nós (porque o amor tem isso: quando verdadeiro, vai ao encontro do ser amado) para nos salvar! Para que todo que Nele cresse não perecesse, mas alcancesse a vida eterna! (Jo 3, 16) 
Muitos de nós temos brincado nos mares dessa vida alheios aos perigos que nos cercam. Como eu nos meus 13 anos na Praia de Boa Viagem naquele Domingo, vamos curtindo os prazeres da vida sem imaginar que estamos prestes a ser tragados pelo Mal, pelos pecados, pelas nossas imprudências/burrices/erros, orgulhos, mágoas, arrogâncias, omissões, falta de perdão, implicâncias, individualismos, esfriamento da fé, indiferença e até mesmo hostilidade à Deus... Mas Jesus nasceu em meio a nós não para nos condenar, mas para nos SALVAR! Para ser em nossa vida como aquele brigadista gigante e nos suspender pelos cabelos se for preciso e não deixar que nós pereçamos! E nós? Como ficamos diante dessa verdade? 
Minha experiência na Missa de Natal desse ano, ao me deparar com essas reflexões, foi a de deixar mesmo o rímel escorrer pela face no meio das lágrimas e repetir diante dos pezinhos do Santo Menino no momento da Comunhão: "desculpe e obrigada! Desculpe por tudo, e obrigada! Perdão! E obrigada, Senhor!"