9 de junho de 2015

Parada Gay: blasfêmia e sacrilégio são as piores ferramentas para se obter respeito para a causa LGBT


Obviamente não poderia me omitir de meditar sobre os recentes acontecimentos envolvendo símbolos cristãos na Parada Gay de 07/06/2015 realizada na Avenida Paulista. Inicio por citar as palavras de Dom Henrique Soares da Costa em seu perfil no Facebook (08/06/2015) também sobre a Parada Gay:


Não tenho raiva, não sinto indignação, não dou importância, não levo a sério... Só tenho pena, muita pena de uma sociedade que se degrada, de uma gente que perdeu o rumo, o sentido, os valores... Pena! Muita pena de ver aonde chegamos, aonde chegou a nossa sociedade, aonde chegaram certos homossexuais... Só peço aos cristãos que não reajam: não vale a pena! Ali somente se mostra o que é essa "cultura gay"... Aos homossexuais que não fazem bandeira de sua orientação sexual, aos que não se degradam, mas dignamente levam adiante sua vida, pessoas entre pessoas, sem placa de orientação sexual na testa, sabendo que a sexualidade faz parte da vida, mas não é a vida toda, a esses, meu respeito e minha solidariedade! Sei que não compactuam e se envergonham da degradação que todos vimos. A todos, a paz do Senhor Jesus, nossa Verdade, nosso Caminho, nossa Vida! "Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus!"

A página de conteúdo católico Aleteia postou (08/06/2015) num curto texto sobre a performance de um manifestante fantasiado de Cristo crucificado, com os dizeres "Basta homofobia GLBT" na mesma Parada Gay.

O falecido humorista Millôr Fernandes escreveu: "Democracia é quando eu mando em você. Ditadura é quando você manda em mim". Essa ironia é uma boa definição do pensamento que se manifesta em grande parcela das discussões ideológicas no mundo, ontem e sempre. Sua estrutura também pode ser aplicada a termos como "liberdade", "intolerância" e "manifestar-se": "Liberdade é quando eu me manifesto sobre você. Intolerância é quando você se manifesta sobre mim".

De tudo isso, analiso que é mais do mesmo. Desde o início o povo de Deus foi rejeitado e hostilizado. O Cristianismo é perseguido desde sempre a começar por seu próprio fundador que, levado a esfera governamental, foi injustamente condenado, torturado e morto. Tendo ressuscitado e aparecido a muitos, continuou sendo rejeitado, zombado e combatido. Mesmo com a expansão da Igreja Primitiva os cristãos continuavam não sendo aceitos pelo judaísmo e incompreendidos pelos pagãos. O anti-cristianismo data dos primórdios do Cristianismo com suas calúnias e acusações, não é nenhuma novidade!

Já por volta de 170 d.C registra-se, por exemplo o sábio Celso  com sua obra Palavras de Verdade e também Porfírio (234-305 d.C) em seu tratado Contra os Cristãos questionando a lógica racional na fé cristã acusando-a de absurda, incoerente, impossível e, em última análise evidenciando o entendimento de Paulo quando afirma “a linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força divina” (1 Cor 1, 18). Luciano (125-192 d.C) ridiculariza a ingenuidade e credulidade dos cristãos em textos como A Morte do Peregrino e já desde essa época se faz chacota com a questão da doação em dinheiro para a obra de fé. Um dos relatos que mais me chama atenção desses registros antigos é o de Minúcio Félix, advogado de Roma (200 d.C), que nos deixou um diálogo que narra uma discussão entre um cristão de nome Otávio e um pagão (Octavius, IX, 6 citado em Labriolle, La Réaction païenne, p. 91) onde o pagão dita uma série de mentiras sobre a vivência cristã que vão desde a adoração de uma cabeça de asno até a calúnias sobre canibalismo, incestos e orgias; ao que Otávio, o cristão, calma e persuasivamente rechaça (acesse aqui e leia mais: http://migre.me/qcxFW).

Ou seja, hostilidade, zombaria, incompreensão dos pagãos, daqueles que não creem não é novidade, não me espanta, muito pelo contrário, é o que eu espero deles, tenho já a expectativa negativa. Não me escandalizo com ódio, Aquele a quem eu sigo previu isso: o mundo os odiará pois antes odiou a mim (Lc 15, 18). Podem até odiar, são livres para rejeitar, mas terão que tolerar, terão que respeitar, ao menos por força de lei: o Estado é laico, mas temos assegurado o direito constitucional a religião e o Estado tem a obrigação de garantir e proteger seu livre exercício.

Vale recordar que não se trata de uma teoria sobre respeito, algo subjetivo ou meramente opinião da Igreja, mas o desrespeito a fé é crime. O Decreto Lei nº 2.848 de 07 de Dezembro de 1940 expressa com clareza:

Art. 208 - Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso:
Pena - detenção, de um mês a um ano, ou multa.
Parágrafo único - Se há emprego de violência, a pena é aumentada de um terço, sem prejuízo da correspondente à violência.

O Catecismo da Igreja Católica destaca no § 1738 que “todos devem a cada um a obrigação de respeito. O direito ao exercício da liberdade é uma exigência inseparável da dignidade da pessoa humana, sobretudo em matéria moral e religiosa. Este direito deve ser reconhecido civilmente e protegido nos limites do bem comum e da ordem pública”. E no § 1740, “o exercício da liberdade não implica o direito de dizer e fazer tudo.”

Os cristãos tem que tolerar e respeitar as pessoas LGBT? É claro que sim, óbvio que sim. É imprescindível o respeito à liberdade de todos tanto na internet, quanto nas famílias, quanto nas Igrejas (onde há muuuuuitos homossexuais que vivem sua fé com seriedade e fidelidade) quanto na política, quanto nas manifestações públicas. Tolerar não significa concordar, mas respeitar a liberdade individual, dentro dos limites da lei. Se qualquer grupo que seja se manifesta é sinal de que há liberdade e coexistência, coisa que não admite, por exemplo, o Estado Islâmico, que odeia e não admite a existência do diferente, não tolera nem gay, nem cristão, nem ateu e nem nada divergente de sua proposta, nem mesmo a existência, quanto mais a manifestação, pública ou privada.

Mas fica a pergunta, a comunidade LGBT tem que tolerar e respeitar a comunidade cristã, sua fé, seus dogmas, seus símbolos? E como é que se faz isso? Usar um símbolo religioso numa parada gay é a melhor maneira de expressar suas reivindicações? Fantasiar um manifestante de Cristo Crucificado, Deus encarnado que se imola pela remissão dos pecados da humanidade, ainda que se afirme tratar apenas de expressão artística e metáfora das perseguições e sofrimentos que as pessoas LGBT sofrem? Com toda a certeza NÃO. Isso só faz com que as mensagens e as propostas dessa militância sejam mais e mais rejeitadas e que se alargue a lacuna entre as lutas dos homossexuais e a opinião pública, em especial a da comunidade cristã. A blasfêmia e o sacrilégio são as piores ferramentas para se obter respeito para a causa LGBT pois só fomenta a reação indignada, só promove o conflito.

É preciso compreender e encontrar o equilíbrio entre a liberdade religiosa e a liberdade de expressão. Tolerar a liberdade individual é indispensável. A liberdade de expressão é irrenunciável. Mas como bem disse o Papa Francisco “liberdade de expressão não é liberdade de insulto.”

Há quatro anos atrás o Cardeal Dom Odilo Scherer fez um texto publicado no Estado de São Paulo, ed. de 28.06.2011 por ocasião de acontecimento similar na Parada Gay daquele ano (foi, aliás, um dos únicos bispos da Igreja a se manifestar naquela ocasião). É ainda tão atual e transcrevo alguns trechos abaixo:

Eu não queria escrever sobre esse assunto; mas diante das provocações e ofensas ostensivas à comunidade católica e cristã, durante a Parada Gay deste último domingo, não posso deixar de me manifestar em defesa das pessoas que tiveram seus sentimentos e convicções religiosas, seus símbolos e convicções de fé ultrajados.
Ficamos entristecidos quando vemos usados com deboche imagens de santos, deliberadamente associados a práticas que a moral cristã desaprova e que os próprios santos desaprovariam também.
O uso desrespeitoso da imagem dos santos populares é uma ofensa aos próprios santos, que viveram dignamente; e ofende também os sentimentos religiosos do povo. Ninguém gosta de ver vilipendiados os símbolos e imagens de sua fé e seus sentimentos e convicções religiosas.
A Igreja Católica refuta a acusação de “homofóbica”. Investiguem-se os fatos de violência contra homossexuais, para ver se estão relacionados com grupos religiosos católicos. A Igreja Católica desaprova a violência contra quem quer que seja; não apoia, não incentiva e não justifica a violência contra homossexuais.
Quem apela para a Constituição Nacional para afirmar e defender seus direitos, não deve esquecer que a mesma Constituição garante o respeito aos direitos dos outros, aos seus símbolos e organizações religiosas. Quem luta por reconhecimento e respeito, deve aprender a respeitar. Como cristãos, respeitamos a livre manifestação de quem pensa diversamente de nós. Mas o respeito às nossas convicções de fé e moral, às organizações religiosas, símbolos e textos sagrados, é a contrapartida que se requer.
A Igreja Católica tem suas convicções e fala delas abertamente, usando do direito de liberdade de pensamento e de expressão. Embora respeitando as pessoas homossexuais e procurando acolhê-las e tratá-las com respeito, compreensão e caridade, ela afirma que as práticas homossexuais vão contra a natureza; essa não errou ao moldar o ser humano como homem e mulher. Afirma ainda que a sexualidade não depende de “opção”, mas é um fato de natureza e dom de Deus, com um significado próprio, que precisa ser reconhecido, acolhido e vivido coerentemente pelo homem e pela mulher.
As ofensas dirigidas não só à Igreja Católica, mas a tantos outros grupos cristãos e tradições religiosas não são construtivas e não fazem bem aos próprios homossexuais, criando condições para aumentar o fosso da incompreensão e do preconceito contra eles. E não é isso que a Igreja Católica deseja para eles, pois também os ama e tem uma boa nova para eles; e são filhos muito amados pelo Pai do céu, que os chama a viver com dignidade e em paz consigo mesmos e com os outros.

Fico me questionando: a quem interessa essa pseudo guerra de LGBT x cristãos? A maioria dos gays que conheço e convivo são teístas e muitos são cristãos e jamais aprovariam essa manifestação desrespeitosa, embora possam externar suas críticas aos cristãos por variados motivos (muitas delas com muito fundamento)! A maioria dos cristãos que conheço jamais faria nenhum ato de violência ou agressividade a ninguém que se assuma homossexual, embora possam da mesma forma externar suas discordâncias a comunidade LGBT por também variados motivos (a maior parte destas direcionadas ao lobby gay e não à liberdade da pessoa homossexual). Então quem está por trás desse circo armado e com que objetivo? Não estarão os LGBT e os cristãos sendo manipulados nessa guerrinha de novelas, publicidades, bancadas congressistas onde se perde tanto tempo e se desvia o foco dos reais e urgentes problemas do cidadão brasileiro, seja ele cristão ou gay?

Conclusão:
Comunidade LGBT: quer respeito? Respeite. Quer exigir tolerância? Exerça a tolerância. Dica básica: existem outras formas de se fazer ouvir de maneira positiva, que não a blasfêmia e o sacrilégio, se é que esse é o objetivo, se fazer ouvir. Aparentemente o objetivo não é se fazer ouvir, mas antes gritar, e ferozmente, se possível. O objetivo parece ser chocar, provocar, ofender. O que se consegue com isso?

Comunidade cristã: deixo as sábias palavras novamente de Dom Henrique Soares da Costa (09/06/2015, pelo facebook):
Entrar em polêmicas? É o que esperam de nós os inimigos do Cristo.
Fazer cruzadas? É o que desejam os que nos querem combater.
Pagar mal com mal, ser tomado de ira? É o que deseja o próprio Diabo: envenenar nosso coração, de modo que a ira e azedume dos que desprezam o Senhor também entrem no nosso coração - mesmo com motivações santas...
Dialogar, responder, reagir, devemos fazê-lo quando o interlocutor merece ser levado a sério...
Quando alguém pergunta sem realmente procurar a resposta, quando alguém agride de modo cego e irracional, quando se grita ou protesta de modo rasteiro, sem argumentos plausíveis, qual a resposta mais inteligente?
Qual a reação mais de acordo com Aquele que Se calou diante dos fariseus que queriam apedrejar a mulher ou ante os que Lhe perguntaram com qual autoridade agia?
Qual a resposta à pergunta de Pilatos, sem interesse real pela verdade?
É fácil uma indignação precipitada e imatura, exigindo até dos pastores da Igreja uma ação ao gosto das paixões e rompantes de cada um! Há hora de falar e hora de calar, há modo de falar e modo de calar, há motivos para se manifestar e motivos de estar em silêncio.
Deus abençoe os cristãos!
Deus abençoe a Santa Esposa de Cristo, nossa Mãe católica!
Deus conceda aos filhos da Igreja a coragem de agir do modo correto, na medida correta, no momento correto, com argumentos corretos e pelos motivos corretos!
E nunca esqueçam: "As portas do Inferno não prevalecerão!"