20 de novembro de 2013

Treinamento de Perdão



Então Pedro se aproximou dele e disse: Senhor, quantas vezes devo perdoar a meu irmão, quando ele pecar contra mim? Até sete vezes? (Mateus 18, 21)

Na mesma quantidade de vezes que Deus nos perdoa nossas imperfeições, deslizes e fraquezas, devemos perdoar as pessoas que Ele colocou na nossa vida. Simples assim. É fácil? Obviamente não. Como é difícil passar o dia inteiro perdoando um filho que só apronta, a semana inteira perdoando a agressividade das pessoas no trânsito, o mês inteiro perdoando o patrão exigente, o ano inteiro perdoando os alunos bagunceiros, a vida toda perdoando uma esposa “reclamona”!...

Precisamos aproveitar pequenos desentendimentos e irritações cotidianas como um treinamento de perdão pois virão ocasiões que teremos que liberar grandes perdões e aí, como faremos? Se não conseguimos perdoar o pouco, como perdoaremos o muito? E Deus espera isso de nós, já que Ele vive nos perdoando nossos "poucos" diariamente, e aqueles "muitos" com os quais já o ofendemos e entristecemos tanto em certas ocasiões em nossas vidas.

Não devemos superestimar os desgostos que temos na convivência com os outros, mas sim perceber que, quando somos contrariados em nossas opiniões e vontades, quando nos sentimos desrespeitados ou mesmo feridos, é uma ocasião que Deus nos dá para nos superarmos em paciência e caridade, uma ocasião para sermos “superiores”! Não superiores no sentido de “estar por cima da carne seca”, muito pelo contrário. No Reino de Jesus estar por cima, muitas vezes significa estar por baixo: “Os humilhados serão exaltados” (Lucas 18, 14).

Esforcemo-nos para perdoar diariamente, de coração, sem guardar rancor, sem achar que que somos bons demais para sermos ofendidos, que é algum crime hediondo discordar da nossa sublime opinião, que é inadmissível que as coisas não aconteçam estritamente segundo nossos planos e vontades! Esforcemo-nos para nos auto-conhecer com humildade e verdade e assim, nos conscientizarmos que nós não somos “essa coca-cola toda”, nem somos assim “uma Brastemp”, que definitivamente não somos “o último biscoito do pacote”! Somos todos feitos da mesma farofa! Somos tão imperfeitos quantos os outros! Também precisamos da paciência dos outros, também magoamos, também falhamos... Também estamos na dependência do perdão do próximo e de Deus!

Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se reconhecemos os nossos pecados, Deus aí está fiel e justo para nos perdoar os pecados e para nos purificar de toda iniqüidade. (João 1, 8-9)

Amemos e perdoemos, simplesmente por que precisamos ser amados e perdoados. Encaremos o perdão como um treinamento intensivo de amor! Permitamos que o Senhor seja esse personal "perdoador" para nós: ouçamos suas súplicas em nossos corações nos incentivando a compreender, a relevar, a esquecer, a "deixar quieto"... Que o sopro do Seu Espírito nos fortaleça a aguentar firme o tranco dos irmãos quando eles não estiverem no seu melhor... Que o exemplo de Maria nos inspire seu sábio silêncio, a viver as injustiças na paz da presença de Deus, a guardar os acontecimentos no coração meditando-os, sem raiva, mas com amor... 

Exercitemos o perdão como quem vai para a academia: várias vezes, várias séries, sempre aumentando a velocidade, a intensidade, a carga, para então com o tempo, podermos ver os resultados dos nossos esforços em nosso caráter, em nossa personalidade! Todo treinamento visa a melhora, a superação, o ir além. O Catecismo da Igreja Católica (§2843) considera que o perdão é o amor que ama até o extremo do amor! Não se trata de simplesmente aceitar tudo sem diálogo, sem correção fraterna, mas em encarar tudo com mais amor e menos razão! Não se trata também de engolir sapo mas ficar remoendo por dentro, mas em mudar a ferida em compaixão e purificar a memória, transformando a ofensa em intercessão" (CIC, §2843). Isso só vira realidade se 'treinarmos', se exercitarmos, se fizermos na prática, 70 vezes 7 vezes...

E quando ficar difícil, quando os pequenos perdões se tornarem grandes perdões que a vida nos exigir, nunca nos esqueçamos que esta não é uma atitude que precisamos realizar sozinhos! Clamemos a graça e a ajuda de Deus SEMPRE, na oração!

“Ajuda-me a amar e perdoar, Senhor, na mesma medida da minha própria necessidade de ser amada e perdoada! Ajuda-me a me conhecer para que eu não me ache a dona da razão, para que eu perceba o quanto as pessoas também precisam ser pacientes comigo! Que pela sua graça, tudo aquilo que as pessoas me fazem de mal não tenha tanto impacto sobre mim, mas que seja maior o impacto da Sua graça no meu coração me ajudando a compreender mais, aceitar mais, aguentar mais, por amor! Que a pretensão de estar sempre certa não supere o carinho que tenho pelas pessoas; que a mania de controlar tudo nunca supere a ternura nas minhas relações; que a cegueira da irritação momentânea não comprometa o amor que me liga aos que o Senhor colocou no meu caminho... Por Jesus, em Maria, amém!”