15 de outubro de 2012

Peregrinação de Nossa Senhora Aparecida: uma partilha sobre a primeira edição (Ano 2000)



Vivemos aqui já há treze anos em nossa comunidade a experiência de fazermos uma Peregrinação todo dia 12 de Outubro, em louvor a Jesus e em honra a Nossa Senhora Aparecida. Saímos do estacionamento da nossa capela (Igreja São Vicente) em Sobradinho-DF e pegamos a BR-020 rumo à capital federal, mais especificamente para a Esplanada dos Ministérios, quase em frente à Catedral Metropolitana, onde a Arquidiocese de Brasília sempre organiza um lindo altar para uma grande festa: a parte da manhã dedicada às crianças, com brincadeiras e evangelizações específicas; a parte da tarde dedicada a orações e devoções marianas, homenagens dos jovens para às 17hs iniciar a Santa Missa da Padroeira do Brasil e de Brasília, finalizando com uma bela procissão ao redor da Esplanada com uma bênção especial do arcebispo pela nação, governantes, povo brasileiros em geral e pelas famílias.
O ano 2000 foi o Ano do Jubileu na Igreja Católica. Lembro-me de que eu e alguns amigos do grupo jovem estávamos ligados em tudo o que a Igreja promovia nesse sentido. Nosso amado Beato João Paulo II, do alto de seu posto de Vigário de Cristo em Roma, incentivou várias práticas espirituais que promovessem uma vivência mais profunda dessa majestosa festa da Igreja. Uma dessas práticas foi a "Peregrinação". Por inspiração do Espírito Santo, esse grupo de jovens denominado Imago Dei, também muitos deles atuantes no Grupo de oração da RCC da comunidade São Vicente, tomaram a iniciativa de colocar em prática esta orientação do Papa. Foi assim que começou a Tradição da "Caminhada do Dia 12 de Outubro".
Já em 1998, o Papa João Paulo II publicou o documento "A Peregrinação no Grande Jubileu do ano 2000" (vide em http://migre.me/5RXnZ). Neste belíssimo texto, ele procura explicar detalhadamente o fenômeno “Peregrinação” em seis breves mas densos capítulos:
1. A peregrinação de Israel;
2. A peregrinação de Cristo;
3. A peregrinação da Igreja;
4. A peregrinação rumo ao Terceiro Milênio;
5. A peregrinação da humanidade;
6. A peregrinação do cristão hoje.
Penso que isso foi o gérmen espiritual dessa nossa experiência da Peregrinação de Nossa Senhora Aparecida, num período que, acredito eu, havia todo um movimentar diferente do Espírito Santo para a Igreja no mundo inteiro, mas também um mover peculiar dentro de mim, assim como de meus amigos da Igreja. As atividades da Arquidiocese estavam especiais, como também as da paróquia, do Grupo Jovem, da RCC... Eu e Juliano éramos grandes amigos de fé e junto com esse grupo estávamos a viver um grande momento de encontro com Cristo em nossas vidas.
Em 1999, o Juliano (promovido então ao ‘cargo’ de meu namorado, e um dos líderes dos jovens do grupo que citei acima), sempre antenado com Roma e muito fã de João Paulo II, havia lido a Bula Papal “Incarnationis Mysterium”, com a qual era proclamado oficialmente o Grande Jubileu do ano 2000 e em uma reunião com os jovens trouxe para nós esse conteúdo. Estávamos mergulhados no Tríduo de preparação para o Jubileu: 1997, o ano do Filho; 1998, ano do Espírito Santo (ano de grande conversão dos jovens nossos amigos, e de nós próprios!); 1999, ano do Pai; e com a supracitada Bula, o Papa dava algumas orientações sobre a vivência do ano 2000, o ano do Grande Jubileu. Nela (vide http://migre.me/b9TsY), João Paulo II evidenciava as propostas da caridade, da contemplação da vida dos mártires, do Sacramento da Confissão, das Indulgências, a beleza do sinal da Porta Santa, tudo muito próprio de um ano Jubilar... E dentre tudo isso, destacava as peregrinações nesse contexto (§7 da Incarnationis Mysterium):
A instituição do Jubileu foi-se enriquecendo, ao longo da sua história, com sinais que atestam a fé e favorecem a devoção do povo cristão. De entre eles, há que recordar, antes de mais, a peregrinação. Esta reproduz a condição do homem, que gosta de descrever a sua própria existência como um caminho. Do nascimento até à morte, cada um vive na condição peculiar do homo viator. Por sua vez, a Sagrada Escritura testemunha repetidas vezes o valor do fato de pôr-se a caminho para ir aos lugares sagrados; era tradição do Israelita ir em peregrinação à cidade onde se conservava a arca da aliança, ou então visitar o santuário de Betel (cf. Jz 20, 18), ou o de Silo, onde Ana, mãe de Samuel, viu a sua oração atendida (cf. 1 Sam 1, 3). Submetendo-Se voluntariamente à Lei, também Jesus, com Maria e José, foi como peregrino à cidade santa de Jerusalém (cf. Lc 2, 41). A história da Igreja é o diário vivo duma peregrinação sem cessar. A caminho da cidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, da Terra Santa, ou de santuários — antigos e novos — dedicados à Virgem Maria e aos Santos: eis a meta de muitos fiéis que assim alimentam a sua devoção. A peregrinação sempre constituiu um momento significativo na vida dos fiéis, revestindo expressões culturais diferentes nas várias épocas. Ela lembra o caminho pessoal do crente seguindo as pegadas do Redentor: é exercício de ascese ativa, de arrependimento pelas faltas humanas, de vigilância constante sobre a própria fragilidade, de preparação interior para a conversão do coração. Através da vigilância, do jejum, da oração, o peregrino avança pela estrada da perfeição cristã, esforçando-se por chegar, com a ajuda da graça de Deus, “ao estado de homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo” (Ef 4, 13).
Também ao fim do texto do Magistério no § 14, o Papa João Paulo II enfatizava a indispensável presença de Maria na experiência Jubilar:
A alegria jubilar não seria completa se o olhar não se voltasse para Aquela que, com plena obediência ao Pai, para nós gerou na carne o Filho de Deus. Em Belém, completaram-se para Maria “os dias de Ela dar à luz” (Lc 2, 6), e, cheia do Espírito, deu à luz o Primogênito da nova criação. Chamada a ser a Mãe de Deus, Maria viveu plenamente a sua maternidade, desde o dia da concepção virginal até achar o seu coroamento no Calvário aos pés da cruz. Lá, por dom admirável de Cristo, Ela tornou-Se também Mãe da Igreja, a todos indicando a estrada que conduz ao Filho. Mulher do silêncio e da escuta, dócil nas mãos do Pai, a Virgem Maria é chamada “bem-aventurada” por todas as gerações, porque soube reconhecer as maravilhas que n'Ela realizou o Espírito Santo. Jamais os povos se cansarão de invocar a Mãe da misericórdia, e sempre encontrarão refúgio sob a sua proteção. Aquela que, com seu filho Jesus e o esposo José, foi em peregrinação ao templo santo de Deus, proteja o caminho de quantos se fizerem peregrinos neste ano jubilar. Queira Ela interceder com particular intensidade, durante os próximos meses pelo povo cristão, para que obtenha a abundância da graça e da misericórdia, enquanto rejubila pelos dois mil anos passados desde o nascimento do seu Salvador.
No meu aniversário, 05 de novembro de 1999, eu e o Juliano havíamos ficado noivos e nos propomos a aproveitar de toda essa riqueza proposta pela Igreja para nos prepararmos dignamente para o nosso matrimônio. Escolhemos a data do casório (06 de Janeiro de 2001) com base na data escolhida para ser o término do Ano do Jubileu, assim, nosso plano era viver intensamente, muito unidos a Jesus e a Maria, esse tempo de noivado. Além de todas as nossas responsabilidades nos grupos e movimentos que participaram, fizemos, só nós dois, retiro de silêncio, cursos sobre bioética e método natural, encontros de namorados, intensificamos a vivência das 5 pedrinhas, amparados pelas formações da Canção Nova (Eucaristia, Confissão, Estudo da Palavra, Rosário e Jejum) ... Foi um ano de intensa vivência espiritual, como pedia o Papa.
De todas as orientações que tínhamos, a única que não havíamos colocado em prática era a que dizia respeito à Peregrinação. Olhando também o Catecismo da Igreja Católica, alguém (não me recordo quem, mas foi alguém numa reunião do Grupo Jovem) compartilhou o parágrafo 2691:
(...) as peregrinações evocam nossa caminhada pela terra em direção ao céu. São tradicionalmente tempos fortes de renovação da oração. Os santuários são para os peregrinos, em busca de suas fontes vivas, lugares excepcionais para viver "como Igreja" as formas da oração cristã.
Estávamos vivenciando um tempo forte na vivência de comunidade e fraternidade um com o outro, mas também com o Grupo Jovem, sob orientação do Grupo de Oração da RCC, sempre muito próximos a Canção Nova e também a Paróquia. Ora, sendo nossa paróquia “Bom Jesus dos Migrantes” de responsabilidade da Congregação Scalabriniana, vocacionada justamente na evangelização dos povos sob a influência do fenômeno da migração humana, éramos frequentemente formados a respeito dessa questão da migração, do caminhar humano, de que Jesus, Maria e José também foram migrantes, etc; tudo muito em consonância com o material sobre Peregrinação para o Jubileu do Papa João Paulo II.
Embora estivéssemos nos preparando para casar, trabalhando, arrumando casa etc, éramos jovens, sem muitas condições financeiras para empreender alguma viagem mais longa ou onerosa, em especial em conjunto com nossos irmãos de caminhada... Então foi surgindo a ideia de que, para pôr em prática a possibilidade de peregrinarmos, poderíamos unir nossa obrigações nos próprios trabalhos solicitados a nós e nas inspirações do Espírito Santo ia nos colocando para assumirmos. Por exemplo, recebendo oração por imposição de mãos numa reunião de toda arquidiocese da RCC, foi colocada uma profecia que afirmava que daqueles jovens ali presentes, Deus levantaria uma juventude renovada e santa para a evangelização de nossa cidade de Sobradinho e que deveríamos assumir com seriedade a intercessão por todos os jovens, em especial os de nossa cidade. Outro exemplo, é que muitos de nós haviam sido escalados para trabalhar na Festa de Nossa Senhora Aparecida na Esplanada dos Ministérios, na homenagem dos jovens a Maria. Assim, conversa vai, conversa vem, a proposta foi pouco a pouco tomando forma: e se fôssemos caminhando da São Vicente até a Esplanada, em espírito de penitência? Poderíamos oferecer o sacrifício pela conversão dos jovens de Sobradinho (e do mundo inteiro) já tomando posse do que havia sido profetizado para nós, faríamos a peregrinação de que falava o Papa para o Ano Jubilar, já ficaríamos na Esplanada para as homenagens dos jovens a Maria, e logo em seguida para a Missa, etc...
Esse grupo de jovens tinha a “mania” de empreender evangelizações espontâneas nas lanchonetes (simplesmente cantando alegremente “Ao Senhor agradecemos o alimento que teremos” antes de comer), de sair juntos para uma balada à noite e acabar numa vigília em alguma capela do Distrito Federal, de se reunir em qualquer praça e tocar um violão e louvar a Deus, de puxar um terço em pleno ônibus lotado voltando para casa, testemunhando “quase sem querer” essa vivência espiritual em todos os lugares, em qualquer situação. De modo de que a Peregrinação foi facilmente acolhida!
Combinamos de sair às 5hs da manhã e fomos sem muita preparação e nem consciência do que iríamos viver. Com terços nas mãos, violão, Bíblia, o ofício de Nossa Senhora, fomos com o coração cheio das palavras do Papa as quais havíamos tomado conhecimento, com várias intenções de oração, muitos nomes de jovens na lembrança, amigos perdidos nas drogas, com conflitos familiares, rezando, cantando e caminhando... Lembro-me de que, num momento de oração especial, colhemos ao longo do caminho várias florzinhas de Primaveras (também conhecida como “Bouganvilles”) e, a cada flor que colhíamos, era um jovem que entregávamos nas mãos de Maria. Eu e algumas amigas iríamos, na parte da tarde, participar das homenagens dos jovens para a Nossa Senhora já lá no altar na Esplanada, dançando uma coreografia na qual havia um momento em que lançaríamos pétalas de rosas na imagem da Mãe. Optamos então por lançar essas primaveras, realmente ofertando esses jovens e seus familiares, necessidades e problemas, com muita confiança sob a intercessão da Mãe Aparecida.
Ao chegarmos no “Eixão” (a via curva que forma uma das “asas”, no caso a “Asa Norte”, do avião que dá a forma peculiar de Brasília e que nos levaria até a Esplanada dos Ministérios), última fase de nossa caminhada, já era por volta das 11hs da manhã e o sol estava bem quente nessa época que, em Brasília, é o finzinho do período de estiagem. Decidimos, para completar o sacrifício, meditar na oração da Via Sacra. Fizemos com muita piedade, meditando em nossos próprios pecados, em espírito de penitência mesmo, cantando, ajoelhando no asfalto quente, procurando dar mesmo um testemunho de fé diante dos atletas de fim de semana que lotam essa via que fica fechada para trânsito de carros aos domingos e feriados. Se por um lado essa foi a experiência mais profunda de penitência que eu já tive até hoje, por outro lado nós quase não conseguimos dançar no período da tarde! De qualquer forma, foi a primeira e última vez que fizemos a Via Sacra de maneira tão piedosa (e demorada!) em nossas Peregrinações!

Conforme a "A Peregrinação no Grande Jubileu do ano 2000" do Papa João Paulo II analisava, particularmente no capítulo 6 (A Peregrinação do Cristão hoje), pude perceber que a peregrinação é uma metáfora da vida, uma parábola da caminhada de fé. Neste documento ele afirma (§ 32):
A dinâmica própria da peregrinação revela com clareza algumas etapas que o peregrino alcança, e que se tornam um paradigma de toda a sua vida de fé: a partida torna manifesta a sua decisão de avançar até à meta e de conseguir os objetivos espirituais da sua vocação batismal; o caminho o conduz à solidariedade com os irmãos e à preparação necessária para o encontro com o seu Senhor; a visita ao Santuário convida-o à escuta da Palavra de Deus e à celebração sacramental; o retorno, por fim, recorda-lhe a sua missão no mundo, como testemunha da salvação e construtor da paz.
Durante o trajeto, eu não podia deixar de observar a dinâmica da caminhada, dos participantes, meu próprio comportamento... Em alguns momentos eu estava mais disposta, motivada, queria ir um pouco mais rápido, e me impacientava com os mais lentos... da mesma forma que na obra de Deus nos deparamos com pessoas que estão meio desanimadas e trabalham num ritmo mais devagar e por muitas vezes as julgamos. Em outros momentos, em especial quando eu me sentia tão imersa na oração, ver pessoas “fora da unção”, conversando ou rindo, me fazia ficar triste... o interessante é que, mesmo num pequeno espaço de tempo, eu passava de concentrada para dispersa, conversando, rindo e atrapalhando a oração de outras pessoas, o que me fazia perceber que, durante o caminho, somos instáveis, às vezes na unção, às vezes desatentos, é preciso compreensão e paciência, conosco e com os outros.
Várias e várias vezes, o cansaço me pegava, já que são cerca de 24 km de percurso. Olhava para o horizonte a minha frente e imaginava minha meta, no caso a Catedral lá na Esplanada dos Ministérios. Por vezes achava tão distante, tão difícil, começava a duvidar que chegaria mesmo. Começava a querer reclamar, pensava em me desviar do meu objetivo, parar, me sentar e não mais levantar, pegar um ônibus e voltar... Era impossível não fazer a transposição da caminhada para a vida de fé em Cristo, da meta da Catedral para a meta do Céu. Quando as exigências do Evangelho apertam demais em nossa vida, quando a perseverança na fé nos trazem dor e fadiga, quando a prática da caridade parece inútil, sentimos que o caminho está comprido demais, e duvidamos que poderemos um dia alcançar o Céu. Mas continuamos, perseveramos, prosseguimos, tanto na Caminhada do dia 12 de Outubro quanto nos passos de Cristo, pois alguma coisa em nosso coração nos dá a certeza que a Catedral estará lá e nos espera, que o Céu é logo, pois a eternidade já se iniciou... Não sabemos exatamente o que será nem como será, mas sabemos o que atesta a Palavra! Podemos confiar pois “Nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam.” (1 Cor 2, 9) Nessa hora a comunidade é todo o combustível que precisamos! Um começa a rezar, outro a cantar, outro chega e nos dá a mão... E os passos vão se sucedendo um após outro. Nessa experiência aprendi que se estivesse sozinha, nem teria começado a caminhar! Se não fossem os irmãos dando força, a caminhada seria pesada demais...
Todavia, houve (e sempre há, sempre haverá) também os momentos de solidão. Com calos nos pés, fui ficando para trás, cada vez mais afastada do grupo. Em alguns momentos me senti mesmo esquecida por eles! Inevitável uma certa mágoa: “Poxa, ninguém está vendo que eu estou morrendo aqui? Será que não dava para andar mais devagar?” Nessa ocasião, analisava também que, se eu for colocar todas as minhas expectativas para prosseguir nas relações que tenho com as pessoas, minha vitória estará comprometida. Se eu não puder caminhar sozinha, com minhas próprias pernas, contando apenas com as minhas próprias convicções e com a força do Espírito Santo a me impulsionar, não avançarei em certas partes do percurso. Além disso, quantas vezes eu mesma não teria deixado irmãos sozinhos para trás, sem nem perceber seus sofrimentos, sem diminuir a cadência, sem voltar para dar-lhes a mão na caminhada da Peregrinação e até mesmo na “vida real”?...
O momento de chegada ao objetivo é, antes de mais nada, tão emocionante quanto o término de uma prova atlética, com a diferença de que é muito mais que isso. É um momento de efusão do Espírito Santo potencializado com a adrenalina corporal, juntando todas as análises e meditações ao longo do percurso, todas as intenções que trazíamos, todos os jovens pelos quais rezávamos... A visão de longe que tínhamos da Catedral, nossa... Muitos não conseguiram conter as lágrimas. Gostaria de ter as palavras para ser fiel àquele momento que vivemos, era a primeira vez que experimentávamos essa sensação, mas não existem mesmo termos adequados para coisas desse nível de esplendor, embora a absoluta simplicidade. Quase ninguém sabia o que estávamos fazendo, ninguém nem percebeu nossas lutas, mas havíamos vencido um embate espiritual e corporal, com um objetivo natural, mas principalmente sobrenatural. Ajoelhamos-nos diante do portão da Catedral e mesmo ele estando trancado, fizemos silêncio, agradecemos, oferecemos tudo. O que vivemos foi tão forte que nos move há 12 anos a repetirmos a experiência e convidarmos a todos que amamos a empreender esse desafio conosco.
Foram tantas moções espirituais, tantas análises, tanta reflexão que eu colho os frutos dessa primeira Peregrinação de Nossa Senhora Aparecida até hoje! De fato, pelo menos para mim, foi um caminho de autoconhecimento, de meditação sobre a convivência comunitária, de resoluções tomadas de forma definitiva a respeito da estrada a ser percorrida dentro de um projeto de vida que passaram a nortear minha existência desde então. De todas as 13 edições até hoje, não pude participar de poucas delas. Já fui na caminhada estando grávida de 6 meses da minha primeira filha (ainda que tenha caminhado apenas um pequeno trecho, quis participar pelo menos um pouquinho), já fui com nenê dentro do carrinho, já fui doente no carro de apoio, já fui sozinha e já fui com a família quase toda! A verdade é que quem participa dessa experiência de coração aberto nunca mais consegue esquecer...
Num mundo pragmático como o nosso e cada vez mais hostil a qualquer tipo de espiritualidade, uma Peregrinação como essa parece uma penitência obsoleta e inútil, superstição de um bando de ignorantes fanáticos. Mas o fato é que também observamos que cada vez mais pessoas, esmagadas pelos vazios que esse mesmo mundo oferece, buscam um motivo a mais para as fadigas e lutas dessa vida, um sentido maior para seus passos nessa terra e certamente um objetivo maior para sua existência, uma meta mais digna pela qual lutar, que não a mera sobrevivência material. Nesse ínterim, sempre há as pessoas que buzinam enquanto o grupo avança pelas vias públicas, que se benzem e até acompanham nosso povo com respeito à imagem que portamos e veneramos, que se une a nós para caminhar pelas estradas dessa vida testemunhando nossa fé em Cristo, nunca sozinhos, mas tendo a certeza que conosco, pelo caminho, Santa Maria vai!